sábado, 7 de agosto de 2010

Tudo é assunto

− Ah! És tu, fantasma?

− Serei eu, exactamente? E se sou, o que significa isso? Talvez eu seja uma espécie de sonho teu…

− Pareces bem autêntico. Pelo menos mais concreto do que esta mancha de luz. Vês? O ecrã do computador continua vazio. Não consigo escrever uma linha. Não tenho assunto.

− Mas tudo é assunto. Os jardins suspensos da Babilónia, as ilhas mágicas, as viagens em balão, as miragens de Forte Zinderneuf, a selva e as suas consequências, as cidades de cristal e cada retalho de vidas imaginárias.

− Podia escrever sobre ti, fantasma, mas és imaterial. Nem sei como consegues morar num sítio tão acanhado…

− Sabes onde moro?

− Sim, atrás das estantes com livros, numa fenda minúscula do estuque, são no máximo três milímetros de largura…

− E isso é pouco? Como disseste, e bem, sou imaterial, portanto para mim esse é um espaço infinito. Maior, certamente, do que o teu apartamento de 60 metros quadrados, que quase cabe num ponto final parágrafo.

− Um pouco apertado, não é? Isso aperta-me a alma e também a minha solidão, que deve ser parecida com a tua.

− Ninguém vive sozinho, desde que tenha os seus sonhos e memórias.

− Terás alguma razão! Vou fumar um cigarro para a janela, pensar nisso que disseste. Deixo o computador ligado, talvez te apeteça escrever.

− Sei que agora estavas a ser cínico, Luís Naves, porque nunca te disse que nós, os fantasmas, podemos por vezes criar emanações quase corpóreas, acho que chamam a isso ‘protoplasmas’. E as citadas entidades podem accionar botões, teclas e certos objectos do mundo que habitas. Vai, pois, até à janela pensar, e deixa-me o computador ligado.


Fantasma


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