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terça-feira, 12 de julho de 2011

Dorme sossegada


Trouxe-te uma pêra, das que tu gostas, mãe, olha. Apanhei-a agora no quintal, vê como cheira bem. Não, que ideia, não me encarrapitei na árvore. Estava logo ali na ponta de um ramo, só precisei de esticar o braço. Está bem, fica para mais logo, depois descasco-a, quando tiveres vontade. Vou deixá-la ao pé de ti, na mesa de cabeceira, para lhe sentires o aroma fresco.
Pareces-me melhor hoje, gosto desse teu sorriso.
Está sol. Quando te sentires com mais forças, ponho a tua cadeira lá fora, junto à porta. Ficamos as duas no fresco da tarde, a olhar as árvores no quintal, tão cheirosas da fruta madura, e os pássaros a debicar as ameixas e as cerejas doces.
Tens os pés frios? Olha, vou abrir um pouco as portadas da janela para entrar o sol, e arranjo-te um saco de água quente, para ficares mais confortável.
Não? Está bem, não saio daqui. Não te preocupes. Deito-me um bocadinho ao teu lado. Vê se descansas, não fales agora. Não, não preciso de nada. Nem o Artur, nem a Xana. Eles vêm cá depois, não devem tardar. Ficamos só assim, as duas. Dorme um pouco. E tenta descansar. Não te preocupes, não saio daqui. Descansa.
Já não tens frio? Que bom. Dorme sossegada, mãe.
Descansa.
Descansa em paz.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Apelo do moinho


Esta paisagem nunca me cansa. Quer crer que avistei há dias, aqui da janelita virada a leste com’á porta, por causa dos ventos marítimos, cheguei a avistar uma águia–de-boné, como vocês lhe chamam, que dizem qu’é bicho raríssimo. Nunca me cansa. E olhe que já é o terceiro incêndio qu’eu choro daqui nos últimos quatro anos, qu’até a nha senhora do último se consumiu porqu’ele já vinha monte acima e as labaredas haviam de me lamber a camisa antes qu’às velas do moinho, eu havia de cá torrar com ele, não o abandonava por nada, foi por um triz.
E depois dá-me gozo rodar o mastro, rodá-lo conforme o vento pede, tanto pode tar um vento do mar como de dentro, qu’a gente acompanha sempre de modo às velas encararem o ar, e isso é qu’é estar de bem com a natureza, né, pr’a isso julgo eu que não é preciso ser engenheiro. Isto não é para me meter consigo, que vê-se logo qu’a doutora tamém lhe puxa às vezes pr’á contemplação.
Houve um estrangeiro que fala português que pelo Natal me diz senhor Benedito Alcains, se eu pudesse levava-o a si e ao seu engenho para onde lhe dessem valor. Ora eu até me ri, diga-me lá ond’é esse paraíso, se houvesse valor se calhar não havia vento, havendo vento com fartura carecia do valor ou pessoas qu’o dessem, temos que ir indo assim, uns dias mais conformados qu’outros, né.
Há vento todo o ano, principalmente no Verão, não falta bom trigo pr’a moer qu’até há quem lhe chame biológico, por não ter cá químicos, o que não há é condições pr’a eu me governar aqui, pois. E o nosso presidente Seara, veja-se bem a ironia do apelido, quando passou aí na última campanha, até chamou ao meu moinho “indispensável recurso didáctico que outrora desempenhou um papel preponderante numa economia rural marcada pela subsistência”, parece que foi assim, ficaram-me estas palavras, veja lá a minha memória nesta idade. Podia aproveitar para pôr a escrita em dia, até o neto do Timóteo já me disse Tio Benedito é só querer qu’eu meto-lhe tudo no computador e faz-se um livro. Ma eu não vou nessa, qu’isso ocupa munto as ideias e eu sem estudos e tenho receio dessas doenças da cabeça que agora andam pr’aí, arzais, ABCs e tudo o mais.
Eu aproveito d’a doutora estar aqui, que não sei quando volta, com tanto a fazer lá no seu ministério, e com’isto felizmente já não é como nos tempos de moçoilo, que falávamos a dizer o que ia mal e arrecadavam logo a gente a pão e água, aproveito e só peço que lá nas reuniões d'altos lugares se lembrem aqui do Alcains e deste esmorecido moinho a fugir do passado a passadas largas. Qu’o moinho está em bom estado, sempre sem parar, e que não o deixem morrer cômigo, quand’eu for, pronto, né. É isso que me consome, só isso. E já agora, isto não sendo da minha conta, tá claro, mas qu’olhem pelo resto da paisagem que se alcança daqui, qu’a mim já me parece que não é só ao moinho que faltam com a palavra, e digo isto não é para ofender, ma isto tá-se tudo a ir embora, hã, né? Adeus, doutora, ficava agradecido, gosto sempre de a ver por aqui, adeusinho.

(Foto de João Luís Dória)

domingo, 8 de agosto de 2010

No bazar de Bijapur

Que me importa que se percam as minhas memórias? Elas têm a consistência dos sonhos, da brisa morna, do pulsar das ondas preguiçosas que embalam dunas na praia.
Lembro-me do bazar de Bijapur, com as suas exóticas maravilhas: jóias de jagate, frutos extravagantes de Raichur Doab, especiarias de Vijayanagar e as roupas raras de Khwashpur. A rumorosa rua era uma paleta de cores, que mil linguagens confundiam.
Numa rua estreita, como era aquela parte do bazar, nunca vemos quem caminha na nossa direcção, até ao último instante, quando nos confrontamos com o estranho, sem alternativa senão olhá-lo nos olhos. Aconteceu assim: vi aquela mulher de repente, sem preparação, a emergir num oceano de gente. Vinha na direcção contrária à minha, vestida de verde (ou seria esverdeado, com tons de ocre pálido?) Era jovem, invulgarmente bela. Pareceu-me assim, de graça bondosa e pura, e tão suave como a mais transparente das águas tropicais. Desejei agarrá-la, reclamá-la para minha escrava, dizer-lhe que ela passara no momento errado, que transformara a sua vida; diria isso numa língua desconhecida que ela não poderia entender, pois compreenderia a emoção genuína.
Mas nada lhe disse. Apenas a olhei e ela sorriu. E, depois, passou por mim e desapareceu. Tentei fixar a sua imagem. Recriminei-me por não a ter perseguido, por não me desgraçar nos meandros daquela cidade estrangeira. E a lembrança dissipava-se um pouco de cada vez e eu lutava para a fixar, até que ficou apenas aquele sentimento avassalador que se perdera para sempre uma essência preciosa. Seria banal dizer que os olhos dela eram negros e o seu corpo uma formosura como nunca existira. Mas não me lembro se os olhos eram negros, se a cara era comprida e de que cor exacta era o sari e o véu que trazia a amparar-lhe o cabelo. Pormenores esquivos, que se misturam com os ventos contrários e todas as caras que observei nas minhas vidas, e os lugares que se misturam e os fios de tempo que se entrelaçam.
Desta memória breve ficaram fragmentos. Mas algures no tempo prossegue aquele momento eterno, numa vida paralela que se repete como a ondulação na praia. Apaixonei-me por uma mulher que vi num único instante, no bazar de Bijapur, e com quem cruzei o olhar como se cruzam espadas. Ou teria sido em Mascate que se deu esta pequena ilusão da fútil tragédia do existir? Ou num bazar do Cairo?

Fantasma