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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A vida em capítulos


Quando era criança, inventava histórias divididas em capítulos e cada um deles desenhava-se na sua cabeça com todos os pormenores: os aventureiros iriam enfrentar selvas densas, infestadas de perigos; ou visualizava a cor feroz dos pendões antes da batalha e sentia o nervoso austero, confiante, do herói cavaleiro entre companheiros de justiça; ou acompanhava o explorador planetário no sinistro laboratório onde o maléfico cientista escondera raios mortais; ou observava o oceano indolente e tropical em que navegavam piratas famosos; ou o mar sufocante de areia, o detective genial, a cidade quieta e o deserto de gelo e o barco perdido e a tempestade tremenda.
Depois, compilava a sequência de capítulos, um, dois, três, e por aí fora, até vinte ou ainda até vinte e um, que já era demasiado longo, e decidia que em certo ponto haveria uma bulha e noutro um beijo à namorada (era uma menina de caracóis por quem se apaixonara na escola) e após os perigos quase fatais, o herói iria recompor-se e desvendar o mistério antes do desfecho.
Era tudo pensado ao pormenor, na imaginação. E corria pela casa a mostrar aos irmãos: olha o livro que escrevi, e logo se riam dele. Só tem capítulos. Falta escrever tudo o resto, diziam.
Na sua cabeça era como se tivesse preenchido cada linha, usado todas as palavras necessárias, mas riam-se dele: só tem a lista de capítulos, mais nada.

E foi crescendo. Para tudo fazia uma lista de capítulos. Na escola. Um curso, a universidade que nunca frequentou, depois o doutoramento brilhante. Na tropa. Começaria como soldado e acabaria oficial, após vencer o inimigo em batalha que nunca houve. No casamento. Casamos e arranjamos uma casa e depois um filho, o primeiro, porque depois teremos o segundo e então o terceiro e depois vão para a escola e por aí fora. Mas não teve filhos.
E fez o mesmo em cada emprego. No primeiro capítulo, seria promovido a escriturário e no segundo a quadro intermédio e depois chegava a chefe de secção e a chefe de divisão, até o convidarem para director, por verem como atravessara tão bem os patamares, obstáculos desfeitos como se fossem de papel.
E fazia a lista quando ia de férias e quando se envolveu com a amante e a mulher lhe pediu o divórcio; e preparou novos capítulos, todos muito bem pensados, para o livro completo que lhe ocorria. E a certo ponto, a personagem soltava uma espécie de raiva do coração oprimido, mas nunca escreveu uma linha.

Mudou de empregos e de cada vez fazia listas de capítulos para antecipar os acontecimentos. Conheceu outras mulheres, mas nenhum dos romances correu como ele pressentira no guião inicial. Grandes amores transformavam-se em afastamento progressivo, desilusão e rotina. 
E os episódios passavam, em doses regulares e sempre iguais de tempo.
Um dia, sozinho numa esplanada da praia, olhava o mar agitado e as ondas que esmurravam os rochedos, lembrou-se de olhar para trás e compôs numa folha de papel a lista de capítulos da sua vida.
Ainda só tinha quinze capítulos, cada um bem definido. Mais uns cinco ou seis e estaria tudo escrito, pensou.       

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Experiência

Esta seria a minha primeira experiência. Não quero abusar da paciência de ninguém. Este blogue serviria para uma espécie de diário pessoal, mas um diário público é um absurdo. Nunca confessamos os nossos pensamentos mais íntimos, antes os disfarçamos numa sucessão de vidas paralelas, como se tivessem deixado momentaneamente de ser os nossos. Seria cruel escrever a verdade. Ou não será esta a essência da literatura, habitar outras existências, como fazem os actores, mas sem sermos nós? Criar universos que não sendo os que nos rodeiam, diferindo subtilmente destes, não resultam apenas da nossa fantasia? É isto que tentarei fazer aqui: imaginar, observar, relatar experiências, embora quase nunca parecendo isso, disfarçando o autobiográfico com a camuflagem do ponto de vista. E juntar todas as emoções num catálogo, num almanaque apropriado.