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terça-feira, 12 de julho de 2011

Dorme sossegada


Trouxe-te uma pêra, das que tu gostas, mãe, olha. Apanhei-a agora no quintal, vê como cheira bem. Não, que ideia, não me encarrapitei na árvore. Estava logo ali na ponta de um ramo, só precisei de esticar o braço. Está bem, fica para mais logo, depois descasco-a, quando tiveres vontade. Vou deixá-la ao pé de ti, na mesa de cabeceira, para lhe sentires o aroma fresco.
Pareces-me melhor hoje, gosto desse teu sorriso.
Está sol. Quando te sentires com mais forças, ponho a tua cadeira lá fora, junto à porta. Ficamos as duas no fresco da tarde, a olhar as árvores no quintal, tão cheirosas da fruta madura, e os pássaros a debicar as ameixas e as cerejas doces.
Tens os pés frios? Olha, vou abrir um pouco as portadas da janela para entrar o sol, e arranjo-te um saco de água quente, para ficares mais confortável.
Não? Está bem, não saio daqui. Não te preocupes. Deito-me um bocadinho ao teu lado. Vê se descansas, não fales agora. Não, não preciso de nada. Nem o Artur, nem a Xana. Eles vêm cá depois, não devem tardar. Ficamos só assim, as duas. Dorme um pouco. E tenta descansar. Não te preocupes, não saio daqui. Descansa.
Já não tens frio? Que bom. Dorme sossegada, mãe.
Descansa.
Descansa em paz.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

As fotografias perdidas de Mary Poppins


Não sei se esta é uma história triste ou uma história bela. Talvez a tristeza e a beleza possam andar de mãos dadas, como acontece na vida e obra de uma mulher misteriosa, Vivian Maier, cuja figura tem de ser imaginada. Era uma mulher muito simpática, dizem os que a conheceram. E toda a gente se encantava com a sua bondade natural. Os que na altura eram crianças e tiveram a sorte de se cruzar com ela, recordam uma espécie de Mary Poppins; e quem viu o filme terá de sorrir.
Sabe-se que nasceu em 1926, em Nova Iorque. Que regressou à grande cidade depois da II Guerra Mundial e que viveu bastante tempo em França, embora ninguém saiba o que ali fez. Estaria por lá durante a guerra? Mas como era isso possível?
Enfim, temos de preencher um enorme vazio, imaginar.
Quando regressou a Nova Iorque e Chicago, Vivian trabalhava como educadora infantil e usava sotaque francês, o que me parece um detalhe delicioso. Seria snobismo? Mas isso não joga com o resto. Prefiro pensar que era excentricidade. Vivian (vivia) num mundo pessoal que não partilhou com ninguém, excepto nas aventuras que os petizes recordam ainda, daquela senhora que parecia Mary Poppins, e sobretudo nas fotografias amadoras, melancólicas e sentimentais, que por acaso se salvaram. Imagens cheias de ternura e de um olhar bondoso, de imperfeita simetria que é, afinal, a forma do próprio mundo humano. Mas as fotografias eram negativos que ela guardou até à velhice. Apenas negativos, que só ela sabia o que continham, e que se perderam.

As fotografias salvaram-se por mera sorte, leiloadas e encontradas na caótica acumulação de objectos inúteis em que se transformam todas as obras de arte, todos os rastos das nossas vidas, todas as lembranças daquilo que fomos.
Alguém reparou nelas: não foi momento de iluminação, apenas um processo, como se aquela visão, o mundo secreto de Vivian Maier só fizesse sentido após a revelação. As imagens tinham primeiro de ser transformadas. E só então se podia ver o mundo interior e secreto daquela mulher estranha.
A história que se conta tem ainda uma crueldade final: quando foi "descoberta", Vivian morrera três dias antes.
Ou talvez isto não seja exactamente cruel, apenas muito lógico e acertado. Vivian Maier nunca pretendeu ser "descoberta" ou que lhe interrompessem o silêncio. O seu mundo era tão belo e tão triste, que era só dela.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A mulher de negro

As horas apertavam-me e as cinzas do dia esmoreciam na escuridão vaga do meu coração vazio.
O arrepio que recordo vinha do murmúrio das velhas folhas ainda suspensas nos ramos. Do rio feroz engrossado pelas chuvas, do ar curvado em vento, que devagar arrefecia o manto morto sobre o caminho. E, atrás do arvoredo do parque, os telhados sombrios da minha cidade.
O pálido mundo já apodrecia, numa brandura silenciosa, no sorriso disfarçado, num golpe de vento, no azul que deslizava com a triste melancolia dos entardeceres de Outono.

Além do parque, a água do rio cantava uma melodia comovente.
Ou assim me pareceu, pois era aquela mulher de negro quem chorava. Sentara-se ao frio no banco do jardim, mostrando a sua grande pena pela vida. Mas exibia a desgraça apenas às aves que passavam no céu, apressadas e alheias, e a mim, involuntariamente, cujos passos as folhas mortas tinham transformado em silêncio, e a mais ninguém, pois que não havia outras almas naquele parque deserto, por qualquer razão que não recordo passados mais de cem anos, talvez alguma ocasião solene ou festejo.
Parei em frente à mulher que chorava e ela parou de chorar. Olhou para mim. Perguntei se precisava de alguma coisa, se a podia ajudar de alguma forma. E ela respondeu que não, cavalheiro, que eu era muito gentil, mas que não se passava nada, uma tolice, apenas. Não a podia ajudar.
Ela tinha os olhos muito vermelhos e resisti a abandoná-la. Mas a mulher (observada mais de perto, tinha um vestido pouco elegante, era do povo, bastante banal de beleza) sorriu-me para me encorajar a prosseguir o meu caminho. Não era nada comigo, enfim, hesitei ainda e depois segui pela vereda de folhas, tentando meditar nos meus problemas filosóficos, nos quais pensava muitas horas.
Terá sido no dia seguinte, quando me sentei na mesa do café (como fazia sempre, às 11) que abri o jornal e li, com espanto, a notícia de que uma mulher se atirara ao fim da tarde ao rio que fica ao lado do parque. Uma mulher do povo, vestida de negro, ninguém a pudera salvar, desaparecera de imediato nas águas turbulentas do rio que atravessa a nossa cidade.

Durante uma semana, com o coração pesado, dei os meus passeios pelo parque. Instalara-se o frio e a certa hora, quando as cinzas do dia esmoreciam, não se via vivalma. Foi assim, até que, num desses passeios, julgo que era quinta-feira, ao aproximar-me de um dos bancos do jardim, vi uma mulher sentada. Vestia de preto, mas não chorava.
Aproximei-me. De súbito, percebi que era ela, a mulher que eu perdera. Parei à sua frente.
Ela sorriu para mim, lívida. E sentei-me a seu lado. 

Fantasma 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Solidão

Há momentos em que é preciso mudar de vida. Momentos em que nos forçam a olhar para trás e vemos que não há ali nada.
Estes acidentes de percurso têm a utilidade de nos obrigar a ver as contrariedades a uma luz diferente. As humilhações mais sérias dizem-nos que o tempo à nossa frente é sobretudo escasso e que adiámos tudo o que era importante. Dizem que nos enganámos no caminho, que demos demasiados passos em falso, que nos gastámos em episódios já esquecidos, que somos do passado que não regressa e que nos perdemos no tempo.
Mas pouco importa, no fundo, que o sabor amargo da vida nos domine e nos arrase, desde que seja possível aprender com ele.
Aprender que se nos enganámos no caminho só resta sair da estrada interdita e inventar novas veredas, as do espírito, as da liberdade.
A escolha é sempre a via solitária e a solidão é triste, mas necessária. Não precisa de disfarces nem de desculpas.

Quando te dizem que não és ninguém, então podes finalmente assumir que és tu próprio.

sábado, 7 de agosto de 2010

Tudo é assunto

− Ah! És tu, fantasma?

− Serei eu, exactamente? E se sou, o que significa isso? Talvez eu seja uma espécie de sonho teu…

− Pareces bem autêntico. Pelo menos mais concreto do que esta mancha de luz. Vês? O ecrã do computador continua vazio. Não consigo escrever uma linha. Não tenho assunto.

− Mas tudo é assunto. Os jardins suspensos da Babilónia, as ilhas mágicas, as viagens em balão, as miragens de Forte Zinderneuf, a selva e as suas consequências, as cidades de cristal e cada retalho de vidas imaginárias.

− Podia escrever sobre ti, fantasma, mas és imaterial. Nem sei como consegues morar num sítio tão acanhado…

− Sabes onde moro?

− Sim, atrás das estantes com livros, numa fenda minúscula do estuque, são no máximo três milímetros de largura…

− E isso é pouco? Como disseste, e bem, sou imaterial, portanto para mim esse é um espaço infinito. Maior, certamente, do que o teu apartamento de 60 metros quadrados, que quase cabe num ponto final parágrafo.

− Um pouco apertado, não é? Isso aperta-me a alma e também a minha solidão, que deve ser parecida com a tua.

− Ninguém vive sozinho, desde que tenha os seus sonhos e memórias.

− Terás alguma razão! Vou fumar um cigarro para a janela, pensar nisso que disseste. Deixo o computador ligado, talvez te apeteça escrever.

− Sei que agora estavas a ser cínico, Luís Naves, porque nunca te disse que nós, os fantasmas, podemos por vezes criar emanações quase corpóreas, acho que chamam a isso ‘protoplasmas’. E as citadas entidades podem accionar botões, teclas e certos objectos do mundo que habitas. Vai, pois, até à janela pensar, e deixa-me o computador ligado.


Fantasma