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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O tempo corria devagar

Acordávamos estremunhados, ou talvez não chegássemos sequer a dormir, com medo das horas. A noite embrulhava-se, ainda, no escuro e nós vestíamo-nos à pressa, enfiando a roupa preparada de véspera, sem fazer barulho. Queríamos tanto ir.
E então íamos, muito calados, a conter a ânsia da viagem que nos levaria para longe,  para uma outra vida de tardes de sol e de sestas, de pedrinhas brancas de pederneira e folhas cheirosas dos arbustos, de fruta apanhada das árvores, de correrias e brincadeiras. Uma vida que durava os três meses inteiros que durava o Verão.
A viagem. Uma camioneta ronceira, que partia de uma praça de Lisboa, junto a uma garagem de proporções gigantescas (pensávamos nós). O céu iluminava-se de púrpura e vermelho, vencendo a escuridão aos poucos, e à volta da camioneta era  uma confusão de malas atadas com cordas, de cestos de verga e vozes sobrepostas. O motorista queria sair à hora e nós corríamos para os lugares de trás, era mais divertido, dizíamos nós, já não me lembro porquê. O farnel sobre as pernas (um panado no pão e uma peça de fruta embrulhados num guardanapo de pano), e lá íamos. Era a festa da camioneta a sair da cidade, a entrar naquelas estradas onde começavam a rarear as casas e a suceder-se as curvas.
A paisagem transformava-se, viam-se cavalos e manadas de vacas, casas de pedra isoladas nos campos, o licor beirão nas fachadas de granito das vilas perdidas no meio dos montes (o que é isso, licor beirão? mas a nossa mãe também não sabia), o cansaço das curvas, e do ronco da camioneta nas curvas e nas subidas, os pinheiros e os barrancos (nunca mais chegamos, quando é que chegamos, mãe? E ela, sempre a mesma resposta, ainda falta, dorme um bocadinho).
Nós dormíamos e a camioneta seguia devagar, sempre às curvas. Levava o dia inteiro naquilo, até que avistávamos a lagoa de águas mansas, os juncos nas margens cobertas de seixos negros, os patos voando em bando. Estávamos quase a chegar e o nosso entusiasmo reacendia-se. Esquecíamos o cansaço, o caminho ficava para trás. À chegada, lá estava a nossa avó, sorridente, à espera. Pela frente, teríamos dias inteiros de brincadeira e correrias, de pedrinhas brancas e folhas cheirosas dos arbustos, tardes de sestas e o aroma eterno da resina dos pinheiros. O tempo corria devagar, a nosso favor.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Nada

As galáxias dormem,
o universo emudece.
Extingue-se a voz dos deuses.
Fica o silêncio 
um nada pequenino,
só isso:
nada

Orlando Varejão pousou a caneta e olhou para o que acabara de escrever. Observou a letra retorcida – algo gótica, dissera-lhe um dia uma antiga admiradora, pestanejando muito, cheia de uma secreta esperança de ascender ao mundo literário, secretamente esperando que ele fosse o porteiro. Coitada, não se lembrava já do seu nome. Altina, seria? Nem sonhava como ele próprio estava longe desse olimpo. Tinha publicado dois livros (edição de autor, claro.Uma despesa e tanto, e nunca recuperada na totalidade). Tivera uma boa crítica no primeiro,  "Passos Nocturnos".  O segundo caíra no meio de um profundo silêncio, que ainda durava.
Mas sim, a letra era algo gótica. Em tempos isso orgulhara-o: distinguia-o dos demais. Agora já ninguém ligava a isso. Todo o mundo escrevia no computador, ninguém queria saber de caligrafias. Só ele teimava em rabiscar papéis com a sua velha tinta permanente, mas era cada mais difícil encontrar tinteiros. Nunca se habituara aos computadores, paciência. “Lá terei de arranjar uma esferográfica”, dizia a si próprio de cada vez que tinha de correr dez papelarias antes de conseguir arranjar um tinteiro.
Olhou as palavras marcadas no papel. O nada. Que sensaboria. A musa andava arredia. Talvez não voltasse mais, quem sabe. Suspirou. O vazio aumentava à sua volta (ou dentro de si?), ia crescendo como uma bolha estéril, à mesma velocidade a que rareavam os tinteiros. (talvez fosse uma boa metáfora?... Não, não era).
Apercebeu-se de que lhe doíam as costas.
Olhou o relógio, suspirou de novo. Cinco horas à secretária e... nada. Como no dia anterior, no outro antes deste, e no outro... Lembrou-se de um vago poeta francês, o Trajard (ou Prajard? não se lembrava), que encontrara num círculo literário em Les Jalouses, uma vilória perdida na Catalunha francesa que promovia tertúlias de poetas desconhecidos. Tinha sido convidado, e o Prajard também. "Une merde, je te dis", lamentava-se o francês depois de ter bebido três pastis de seguida.
Enfim, "côneries", como diria o Prajard.
Levantou-se da elegante cadeira de braços, libertando-se da imobilidade com muitos estalidos de ossos. Olhou de novo o papel sobre a secretária e num impulso que a si próprio colheu de surpresa amachucou-o com firmeza e –  apercebeu-se – com um prazer que crescia à medida que a folha lhe ia mirrando nas mãos. Depois lançou-a no cesto dos papéis e saiu, aliviado. Ia à Baixa apanhar sol e beber um café no velho Aviz. Àquela hora não haveria por lá poetas. Talvez encontrasse a malta da sueca. Esperançado, acelerou o passo, descendo a calçada que brilhava docemente à luz da tarde.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Bobeei, dancei


1. E logo o moleque decidiu nascer no dia da final da Copa do Mundo. Eu pegara um rádio de bolso para ouvir o relato falado e logo apareceu na ladeira a santinha da dona Ermelinda, dizendo, seu Florindo, o estão chamando lá na maternidade do doutor Rubem Fonseca, porque o neném está nascendo.

Puta sorte, logo naquela hora, em que o Brasil descia no gramado.

A maternidade fica no limite da zona sul, é preciso tomar ônibus. Me meti à estrada, a pensar em como seria a esplendorosa final, quero dizer, mas também me preocupava com a Mônica, minha mulher, uma mulata braba e cheirosa, que amo muito, embora a meu jeito.

Naquela altura, eu escrevia novela romântica para uma editora de livro popular, das de dois cruzeiros. Estava bolando uma história de herdeira apaixonada por cara caipira, assim como eu, moço enxuto e fogoso, dentuça grande e bigode à Rivelino.
Tinha saudade da Mônica, que a minha sogra nessa manhã levara para a maternidade, pegando carona do siô Inácio, que tem um táxi lá na favela. A criança deveria nascer no dia seguinte, só no dia seguinte, mas se antecipou, feito ponta-de-lança. Catástrofe para mim! Dona Ermelinda me deu a bruta notícia, mas notícia deve ter sempre hora adequada, não deve ser coisa extemporânea (O leitor se interroga com essa de extemporânea, mas convém meter de vez em quando uma palavra mais grossa e de belo efeito).

Saí do ônibus na ladeira de Santa Engrácia, a um quilómetro, ou mais, da maternidade, porque vi um botequim aberto onde se reunira uma agitada multidão de torcedores. Por isso desci. Havia um televisor, com um esplêndido preto e branco, que me permitia ver quanto apertado era o terreno de jogo. Os brasileiros corriam pelo campo fora, pareciam ter asas; os italianos eram circunspectos e ferozes, mas semelhantes a bicho caçado e sem rota de fuga. A turma no botequim lembrava congresso de catatua, olhando um só ponto da floresta e meditando, com subtileza, nas agruras da vida.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Flores Amarelas

Viu-os de longe, meio-trôpegos, a descer da carrinha. “Vamos a isto”, pensou. Elegante nos sapatos de salto alto cor de cinza, saia escura e blusa azul-petróleo, Marta Luz avançou para a porta envidraçada.
Lá vinham eles, naquela lentidão de velhos. Observou o seu vagar de rebanho, alguns apoiados em bengalas, um ou outro mais curvado. Pouco importava, ia ser rápido. Davam uma volta pela exposição, tomavam uns sumos e comiam uns bolos, a televisão fazia o lançamento do projecto e toda a gente ficava a ganhar. O lar mostrava iniciativa, a câmara apoiava e o museu conquistava novos públicos. E, já agora, apareciam nas notícias.
O director do lar, um antigo clínico aposentado, de porte aristocrático, mostrara-se encantado. “Inclusivamente, temos cá uma senhora que pinta umas naturezas mortas muito coloridas, e que é muito popular entre os pensionistas. Eles vão gostar, não têm assim tantas ocasiões para dar asas à veia estética”, dissera o velho Sepúlveda. Marta julgou ouvir ali uma ponta de ironia. Ia encrespar-se, mas em vez disso, suavizou a voz. “Claro, doutor Sepúlvada, isto é feito a pensar neles”. Sorriram ambos. Entendiam-se.
Os velhotes já vinham entrando, pareciam contentes, e ela dava-lhes as boas-vindas, distribuindo-lhes uma folha com a lista dos quadros na exposição, a que tinham dado o título +Cores+Vida. Um jogo de palavras que considerara inteligente e que resumia na perfeição o essencial: juntar os contemporâneos em torno do tema singular “muita cor, muita vida”. Os velhotes iam dar uma ajuda na divulgação.
Mas eles eram mais lentos do que previra. Alguns viam mal e aproximavam muito o rosto das telas. E se um deles tombasse para cima do quadro, ou estragasse os óleos e os acrílicos com a respiração demasiado próxima? “Ou baba, que horror”, pensou.
“Por favor, não se cheguem tanto aos quadros”, disse ela, elevando um pouco a voz, mas sem deixar de sorrir. “Vêem-se melhor de uma certa distância, ora reparem”. Recuou uns passos e fez uma expressão atenta, olhando as telas.
Os velhotes seguiram-lhe o exemplo, o que gerou uma movimentação inesperada e desorganizou a visita durante alguns minutos. Só um homem alto, de melena branca pelos ombros, não se mexeu. Mantinha o rosto pregado numa das telas, e ficou assim até que um dos outros  lhe deu um berro ao ouvido.
Marta movia-se de quadro em quadro o mais depressa que podia, arrastando atrás de si o grupo, saltou mesmo dois deles, para tentar abreviar a visita, mas sem grande sucesso.
O pessoal da televisão tinha chegado entretanto e já estava  a fazer imagens. Marta deitou-lhes um olhar rápido, endireitou mais as costas e pôs-se a falar sobre vida e cores, e sobre a bela colecção de telas que tinham conseguido reunir ali “Um acontecimento plástico único, é um prazer ter-vos aqui”, disse ela, lançando sorrisos à esquerda e à direita.
Tinham chegado, finalmente, ao átrio. A um canto, esperava-os um cavalete com os sumos e os bolos e, ao convite de Marta, o grupo encaminhou-se para lá. Ela então distendeu-se um pouco. Estavam a ir bem, em breve aquilo estaria terminado.
Nesse momento, uma das pensionistas abeirou-se de Marta, carregando a custo um grande embrulho, de forma achatada, que alguém tinha acabado de lhe entregar. “Doutora Marta,”, chamou ela, “uma lembrança nossa para o museu. Obrigada pela tarde inesquecível”. Os outros tinham-se aproximado satisfeitos.
Marta corou um pouco, fez um gesto de agradecimento e desembrulhou o objecto. Com um sorriso, revelou então um quadro, desencadeando um aplauso entre os velhotes,  e agradeceu “em seu nome próprio e do museu”. Pelo canto do olho percebeu que o câmara tinha apanhado tudo. Maravilha.
“Vai expô-lo junto dos outros na galeria?” A jornalista aproximara-se de microfone na mão.
Apanhada de surpresa, Marta vacilou um momento, mas recompôs-se imediatamente. “Essa decisão cabe ao senhor comissário de exposições, certamente vamos discutir o assunto entre nós”.
Satisfeita, a rapariga rodopiou e apontou o microfone à velhota que entregara o quadro. “Qual é mensagem deste quadro para o museu?”
“Sabe, fiz isto com as cores que lá tinha. Queria pintar umas rosas iguais às que temos no jardim, mas não tinha cor-de-rosa, por isso usei um amarelo que me tinha sobrado de outras pinturas. Mensagem não pus nenhuma. Isto foi só para agradecer à senhora doutora”, respondeu a velhota, com um brilho nos olhos.
A jornalista procurou outro pensionista. O da melena, decidiu. Esse até tinha um ar de artista. “De que gostou mais na exposição? ”
O velhote sorriu-lhe. “Olhe, menina, gostei muito do sumo de laranja. Lá no lar não nos dão disto ao lanche”. A rapariga olhou para o câmara e ele percebeu. Estava feito, era tempo de ir..
A equipa saiu apressada,  os velhotes lá se foram também, no seu passo vagaroso. Marta olhou em volta, no átrio mergulhado em silêncio, achou que tinha corrido bem. Enfim, não tinha corrido mal.
“Doutora Marta, o que faço ao quadro?”. Era a voz do Mateus, o funcionário da recepção. Ela respondeu-lhe, distraída. “Ó Mateus, se o quiser, leve-o”, e encaminhou-se ligeira, para o gabinete. Ainda precisava de enviar uns emails.
Mateus observou a imagem na tela. Tinha umas rosas de uma cor estranhamente viva, um amarelo intenso, quase eléctrico, que prendia o olhar e despertava uma ânsia qualquer. Lembrou-lhe vagamente as flores de um quadro famoso, mas este tinha qualquer coisa que não sabia definir. Como se as flores tivessem desabrochado naquele momento, na primeira luz da manhã. Cuidadosamente, voltou a embrulhar o quadro. Ia levá-lo, sim. Devia ficar bem na sala.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Hóspede

Eu estava a conversar com um jornalista (penso que era português) quando se aproximou de nós aquela personagem (chamo-lhe assim porque já não sei até que ponto faz parte da minha memória imaginada). Era um tipo moreno e afável, vestido à ocidental, de espessa barba preta. Curiosamente, muito parecido com o meu colega (eles tinham outra semelhança, ambos falavam bem inglês).
“Chamo-me Doutor Aziz”, disse o intruso, insistindo naquele doutor, como se fizesse parte do nome.
Conversámos de forma intermitente ao longo da noite. Circulávamos pela festa e, por vezes, reencontrávamo-nos e trocávamos umas palavras.

Existir aquela festa era já por si uma estranheza. Organizada por um dos homens mais ricos de Islamabad, obrigara a certa logística reunir na casa luxuosa tantos correspondentes e repórteres, todos atraídos nessa semana ao Paquistão pela iminência de um conflito no país vizinho.
“Sabe, meu caro Rick, quando for para o interior deste país e alguém lhe disser ‘É meu hóspede’ não terá mais nada a recear”. O doutor Aziz tinha um copo de sumo na mão e, ao dizer-me aquilo, ficou algum de tempo à espera, a olhar para mim.
“Se alguém lhe disser isso em Nova Iorque”, respondi, “veja se ainda tem a sua carteira”. Quis fazer humor. O doutor Aziz riu-se com educação, mas pressenti que ficara desiludido comigo.

Circulámos mais um pouco. Meia hora depois encontrei-o a conversar com colegas de outros jornais. Um deles dissera que os fundamentalistas iam tomar conta do Paquistão (julgo que foi provocação, para motivar uma resposta, mas era um sítio bizarro para fazer tal afirmação). E o doutor Aziz, com tranquilidade, lá explicou que não era assim, que isso não ia acontecer:
“Julgam que somos monstros?”, perguntou ele, no meio da discussão, mas sem perder a sorridente paciência.
E, quando nos despedimos, segurou-me longo tempo a mão e disse:
“Seja bem-vindo no meu país. Você, Rick, é meu hóspede”.

Esqueci a simpática despedida. Esqueci a festa, que não era mais do que uma agradável distracção no meu trabalho.
Três dias depois, o jornal mandou-me fazer uma reportagem sobre uma manifestação anti-ocidental. Nas ruas estreitas desfilavam milhares de populares e aquilo durou horas, com berraria e protestos. A princípio, a confusão não me pareceu mais intensa do que ver compatriotas meus a saírem de um jogo de basebol. Mas, às tantas, quando se repetiam palavras de ordem mais acesas, porque estava um calor terrível, houve como que um tumulto, a multidão perdera as estribeiras, ganhara autonomia, força própria, como um rio fora das margens. Corria-se em múltiplas direcções e as massas humanas chocavam entre si. Comecei a ver caras contorcidas de raiva e a ouvir gritos incendiados. Por momentos, senti que estava em perigo. 

Até que um homem me puxou por uma porta, salvando-me da turba. Foi tudo confuso e rápido. Saí da luz para a penumbra. Ele vestia a longa shawaz branca, como todos os outros, colete elegante. Tinha barba negra, espessa e, quando o observei melhor, reconheci o doutor Aziz.
“Que está aqui a fazer, Aziz?” perguntei, sem esconder a minha surpresa.
“Não me chamo Aziz”, disse o desconhecido.
Observei-o de mais perto e cada vez mais me parecia o homem que eu conhecera na festa:
“Mas é você, certamente...”
“Claro que sou eu”, riu-se o desconhecido. “Mas chamo-me Daoud”.
E, no entanto, era igual ao outro. Quando a manifestação acalmou, despedimo-nos: “Você é meu hóspede”, disse ele. E não o vi mais.

Nem sequer posso afirmar que isto seja uma história. A tarefa de um repórter é a de dar sentido ao mundo que observa. Mas se o mundo ganha sentido e a história direcção, então a minha tarefa deveria ser a de encontrar aqui uma determinada ordem. Embora os tenha visto, nem sei se Aziz e Daoud existiram mesmo ou se tiveram existência separada, pois compreendo agora que a vida não passa de um vasto conjunto de factos cuja essência e verdade nos escapam a cada momento.  
 
(Este conto inspirado em coisas vividas foi escrito e publicado num blogue antigo, Prazeres Minúsculos)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Promessa 2 - Histórias recicladas


Ainda um dia aqui hei de contar, com tempo que agora não tenho, sobre certo operário da reciclagem de resíduos urbanos. Sobre como estava ele atarefado na linha de triagem de papel usado, certa manhã, quando um fragmento de manuscrito lhe aterra nas mãos. Algo mal rasgado, atirado para o lixo à pressa, desvendando ali inesperadamente, nos volteios do ciclo da celulose, um pedaço de história. Hei de contar como, sendo o papel colorido, rosado, o operário pôs em alerta máximo o seu sentido da visão e outros de que normalmente não se fala, e procurou sofregamente mais restinhos de folhas semelhantes, por entre o amontoado caótico que durante a manhã foi desfilando à sua frente. Como à saída para o almoço se lhe acumulavam no bolso do guarda-pó, em bolas e bolinhas de papel vincado, maltratado, sujo, despedaços do pensamento de alguém: “… o segredo é um fator de organização de qualquer sociedade e… “, “… a revelação da confidência alheia é sempre um momento de intensa emoção? Pois viciada nessa emoção, Laurinda dava à língua sem dó nem…”, “Sabendo ser a felicidade das coisas mais difíceis de entender, meteu-se à estrada p… “, “… tu hás de morrer ignorando muita coisa que te faria falta sab…”. Etc.
Bem, fica prometido. Posso adiantar que este operário (Celúlio Brito, já agora) sonhara em novo ser engenheiro florestal, projeto que a idade adulta transmutara em moderada frustração. Hei de contar como, no final dessa magnífica jornada em que o tapete sujo da triagem lhe foi oferecendo um puzzle improvável, ele mudou de ângulo a objetiva das aspirações, vendo-se momentaneamente como um distinto bibliotecário: As bibliotecas devem ser dos locais neste mundo onde um gajo tem menos chatices.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Desencontros


Pensara, sem o dizer de forma explícita, que a paixão era exagero, como o trovão ou a dor de dentes. A eternidade, um museu de silêncio. E as palavras, solas gastas de caminhar no chão duro da estrada.

A febre, a congestão em torno da garganta, perturbavam-lhe o raciocínio. Queria explicar aquela repentina ideia de não poder existir na ausência dela, mas estava a fungar do nariz e sofreu um irreprimível espasmo que lhe contraiu o peito, como se um elefante se tivesse sentado sobre as suas costelas; e houve aquele desejo enorme de se libertar do peso concentrado nos músculos, a vontade de explodir como um guerreiro santo. E foi isso que fez: espirrou com liberdade e alívio na direcção da mulher que (descobrira isso cinco segundos antes) começara a amar com uma forma de paixão que era exagero. O espirro soou a trovão. Felizmente, não sentia dor de dentes, isso seria azar histórico, já que tinha uma dor de cabeça que se acumulava como gás liquefeito em lata de estanho fino.

Mal tivera tempo para tapar a boca com a mão. A rapariga recuou do espirro e olhou para ele, com uma expressão assassina. Sentiu-se trespassado por mil agulhas de angústia alheia. Os outros passageiros tentavam virar as costas e, de facto, ficaram só os dois a olhar-se um ao outro, num confronto, como amantes zangados, cercados pelas costas ostensivas dos passageiros, que tinham criado um muro de betão para a privacidade deles.
O autocarro deu um súbito solavanco e imaginou que alguém tivesse atropelado um cão solitário, ou algo assim, mas tinham passado por dentro de um buraco cheio de água, formando uma onda que vergastou o passeio onde duas velhinhas tentaram ainda, com os seus frágeis guarda-chuvas, impedir a chapada de água. Um dos guarda-chuvas era amarelo, o outro encarnado. Ficaram ambas as velhinhas a pingar e a gritar para os passageiros da traseira do autocarro, que tinham contribuído para a temível onda. Lembrou-se da história da borboleta: o seu peso ajudara a provocar um mini-tsunami urbano.

As costas dos passageiros oscilavam para cima e para baixo, das gargalhadas que se ouviam sem se ver. Era um pouco como o espasmo antes do espirro, mas só com riso.
Distraído no seu casulo, sabia que se transformara num pária, a enfrentar a sua amada assassina, que não se conseguia virar de costas, presa entre os corpos comprimidos. Ela tinha caracóis louros e um olhar doce, agora transtornado. Os germes da constipação tinham voado por toda a cabina. Era inverno e estas coisas propagam-se, pensou, filosoficamente.
Em breve, a gripe estaria em todas as cabeças e ainda sentiu uma espécie de formigueiro, ao aperceber-se do museu de silêncio que cobria a eternidade. Uma mulher gorda olhou-o com fúria, mas ele sorriu-lhe em resposta, no exacto instante em que rebentou num imparável impulso de tosse cava. Tossiu, tossiu, libertando-se das entranhas. E a rapariga por quem se apaixonara deve ter sentido um pouco do bafo quente da sua respiração, moveu pobremente o braço, desalentada, e inspirou profundamente, embora não o quisesse fazer.
Por vezes, as pessoas fazem o contrário do que querem.

O autocarro chegou à paragem inundada e travou com estrondo. Os passageiros tombavam uns em cima dos outros, mas é o mesmo que acontece com os pinguins (vira isso num documentário) protegem-se uns aos outros com os corpos, amparam-se e não caem. Imaginou: se os pinguins caírem, será uma queda em dominó.
Saiu do autocarro e sentiu o vento refrescado. Era inverno e encheu os pulmões com ar impuro da cidade. A rapariga também saiu naquela paragem, dirigindo-lhe um insulto de despedida. Nunca mais a veria. Um amor morrera à nascença. Observou-a melhor, olho de perito: não perdera nada de especial, tirando os caracóis louros e a expressão doce.

E em passos cada vez mais febris, largou as solas dos sapatos molhados no chão escuro e endurecido da estrada. Alcatrão do melhor, lisinho e lixado.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O crítico


O crítico passou-se depois de arrasar um livro que não tinha lido.
Era uma figura com quem ninguém falava. Entrava na redacção e sentava-se na mesa do fundo, escrevendo os textos com uma caneta de tinta permanente que desenhava uma letra elaborada que depois os tipógrafos tinham dificuldade em decifrar. Todas as semanas aparecia no mesmo dia, a cabeleira comprida sob o chapéu fúnebre, a bengala com topo de marfim, os dedos da mão direita sempre azuis da tinta. Entrava com um gesto vago de cumprimento e saía mudo.
Um dia, notaram que parecia ter enlouquecido de algum mal súbito. Foi depois de arrasar um livro que não tinha lido. Veio na semana seguinte a saber-se destes factos, entrou mudo na redacção e sentou-se a escrever jogos de palavras com um montinho de frases que pouco mudavam. Escrevera numa das folhas o seguinte: “Aquilo que envelhece devagar quase magoa e na extensa morte que aparece sangram as feridas que não param até que enlouquece a profunda noite e um vento parvo insiste e repisa a adormecida parte. E arrefece. Ao reencontrar a certeza grito de medo e transparece em mim uma solidão cruel que é apenas uma ausência, alma que se percebe exangue e sem vida, sem dor alguma, na doce amargura perene de sumaúma que no fim sobra. E quem pede não recebe, é a fugaz sombra do mundo”.

E produziu umas vinte folhas com variações, todas muito bizarras, por exemplo esta: “O que fere no envelhecimento lento é uma morte que aparece em feridas que sangram em grande, até pararem na louca e profunda noite e na estúpida forma de um vento que dorme e se repisa. Está frio. Para encontrar um choro de medo, transparece a minha penosa solidão, que é meramente a ausência da alma sem fôlego e sem vida, ou dor e amargura. E paira uma perene e doce soma de finais. E quem não receber o que pede, será no mundo uma sombra”.
O crítico ia escrevendo estes exercícios, em formas monótonas. Passou o dia naquilo, meio alucinado, e ninguém se atreveu a criticá-lo por ter arrasado um livro que ainda nem sequer tinha sido escrito. Explicaria porventura que não gostava do autor fulano e foi num momento de impasse que um redactor mais afoito gritou no meio da sala: “Mas isto é um escândalo”.

Houve uma pausa solene nas tarefas da redacção. Todos os redactores, compenetrados numa espécie de reflexão íntima, olhavam para o crítico literário, à espera do que iria acontecer. E instalou-se aquele amargo silêncio de que falam os escritores.
Até que o crítico se debruçou de novo sobre a folha em branco e a caneta de tinta permanente recomeçou a dançar sobre o papel, com um ranger muito irritante que se arrastava como se alguém gemesse. E as letras diziam: “É um escândalo o que quase magoa na lentidão, nas feridas que aparecem ao sangrar...”
Foi só nesse momento que perceberam. O crítico passara-se muito antes de escrever a crítica sobre um livro de um autor que nem sequer existia. Ainda por cima, uma crítica negativa, a arrasar completamente a obra.
E, confortados com estes pensamentos mais sólidos, regressaram ao trabalho, inclinados sobre as suas vidas pequeninas.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A vida em capítulos


Quando era criança, inventava histórias divididas em capítulos e cada um deles desenhava-se na sua cabeça com todos os pormenores: os aventureiros iriam enfrentar selvas densas, infestadas de perigos; ou visualizava a cor feroz dos pendões antes da batalha e sentia o nervoso austero, confiante, do herói cavaleiro entre companheiros de justiça; ou acompanhava o explorador planetário no sinistro laboratório onde o maléfico cientista escondera raios mortais; ou observava o oceano indolente e tropical em que navegavam piratas famosos; ou o mar sufocante de areia, o detective genial, a cidade quieta e o deserto de gelo e o barco perdido e a tempestade tremenda.
Depois, compilava a sequência de capítulos, um, dois, três, e por aí fora, até vinte ou ainda até vinte e um, que já era demasiado longo, e decidia que em certo ponto haveria uma bulha e noutro um beijo à namorada (era uma menina de caracóis por quem se apaixonara na escola) e após os perigos quase fatais, o herói iria recompor-se e desvendar o mistério antes do desfecho.
Era tudo pensado ao pormenor, na imaginação. E corria pela casa a mostrar aos irmãos: olha o livro que escrevi, e logo se riam dele. Só tem capítulos. Falta escrever tudo o resto, diziam.
Na sua cabeça era como se tivesse preenchido cada linha, usado todas as palavras necessárias, mas riam-se dele: só tem a lista de capítulos, mais nada.

E foi crescendo. Para tudo fazia uma lista de capítulos. Na escola. Um curso, a universidade que nunca frequentou, depois o doutoramento brilhante. Na tropa. Começaria como soldado e acabaria oficial, após vencer o inimigo em batalha que nunca houve. No casamento. Casamos e arranjamos uma casa e depois um filho, o primeiro, porque depois teremos o segundo e então o terceiro e depois vão para a escola e por aí fora. Mas não teve filhos.
E fez o mesmo em cada emprego. No primeiro capítulo, seria promovido a escriturário e no segundo a quadro intermédio e depois chegava a chefe de secção e a chefe de divisão, até o convidarem para director, por verem como atravessara tão bem os patamares, obstáculos desfeitos como se fossem de papel.
E fazia a lista quando ia de férias e quando se envolveu com a amante e a mulher lhe pediu o divórcio; e preparou novos capítulos, todos muito bem pensados, para o livro completo que lhe ocorria. E a certo ponto, a personagem soltava uma espécie de raiva do coração oprimido, mas nunca escreveu uma linha.

Mudou de empregos e de cada vez fazia listas de capítulos para antecipar os acontecimentos. Conheceu outras mulheres, mas nenhum dos romances correu como ele pressentira no guião inicial. Grandes amores transformavam-se em afastamento progressivo, desilusão e rotina. 
E os episódios passavam, em doses regulares e sempre iguais de tempo.
Um dia, sozinho numa esplanada da praia, olhava o mar agitado e as ondas que esmurravam os rochedos, lembrou-se de olhar para trás e compôs numa folha de papel a lista de capítulos da sua vida.
Ainda só tinha quinze capítulos, cada um bem definido. Mais uns cinco ou seis e estaria tudo escrito, pensou.       

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O fugitivo


O livro fugira três dias antes. Estava num saco branco, encostado ao aquecedor do quarto, portanto, sem pertencer a uma colunata específica de livros abandonados à sua sorte. Veio a casa um senhor arranjar a janela e teve de tirar o aquecedor do sítio e arrumou o livro algures. Foi então que percebi que ele tinha fugido. Capa creme, sem ilustração, só o título e o autor, portanto, muito discreto. Procurei-o nas pilhas acumuladas, trinta e nove, pelas minha contas. Isso exige tirar os livros de cima, formando novas pilhas temporárias e procurar em baixo, remover tudo e reconstruir depois, baralhando a ordem. Pareceu-me escusado procurar nas estantes, porque estão sempre silenciosas e graves, com os livros escondidos nas suas cavernas quietas, em filas preguiçosas que só os bichos exploram.

Tive esperança de encontrar o livro fugitivo numa colunata de livros que a minha gata aprecia. A pilha número doze. Pareceu-me que o animal estava a dormir a maior altura naquele dia, o que quereria dizer que um livro clandestino se infiltrara.
E, de facto, encontrei o malandro entre um nabokov e um velho romance de graham greene. Até lhe bati com o dedo, para castigo de uma fuga fortuita e sobretudo impensada. O sacaninha respondeu com o que me pareceu ser um sorriso escarninho de letras vermelhas em fundo creme, lábios grossos e pele de mulher morena.

Ainda estou para saber como isso aconteceu, mas o livro fugiu de novo. Foi ontem e não tenho explicação. Lembro-me de o ter colocado na pilha da minha mesinha de cabeceira.
A empregada andou por ali em limpezas e até lhe telefonei, para perguntar se sabia o que tinha acontecido ao livro que estava na minha mesinha de cabeceira, e ela explicou que limpara o pó e arrumara os livros e pusera-os no mesmo sítio, mas talvez tenha baralhado a pilha número sete com a oito, enfim, uma deve estar agora mais alta e a outra mais baixa.

Terei de vasculhar de novo a biblioteca. e este é o quinto livro que me escapa este mês, e um deles por duas vezes. Na primeira hora de buscas, encontrei um do camilo que me fugira da vista no ano passado. O malandro ainda se estava a rir da minha incompetência de bibliófilo e coloquei-o com irritação na minha mesinha de cabeceira, e até telefonei à empregada a proibi-la de limpar ali o pó. Entretanto, a minha gata passou a dormir na pilha caótica número vinte e sete, que está perto da janela. Acho que ficou mais alta, mas não encontro uma explicação. Para saber se o livro se escondeu ali, terei de tirar a gata e o animal está a dormir como um anjinho, com um ronronar que quase me parece um riso de troça.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O atrevimento


Ler esta crónica de Manuel Vicent no suplemento Babélia do El Pais "Sólo hay que atreverse" fez-me reviver um sonho antigo de ser pintor, mas confesso que nunca tive a coragem de fazer o que fez Paul Gauguin, que abandonou a vida burguesa e a própria família para perseguir sem contemplações a sua visão artística.
Cheguei a estudar pintura, na Sociedade Nacional de Belas Artes, onde aprendi algumas técnicas que me permitiriam sem dúvida pintar quadros com alguma exactidão (já quanto à beleza, não sei).
Julgo que a minha capacidade seria, no máximo, a da cópia, mas existe algo na pintura, talvez seja o cheiro das tintas ou o triunfo da cor sobre o branco visto a uma distância mínima, essa fabricação de películas que vistas de perto são manchas e vistas de longe começam a formar padrões, talvez seja isto que me fascina, o observar em cada pincelada o triunfo da ordem sobre o caos.

É isto que me fascina também na escrita, a arquitectura que emerge das palavras; mas, não sei porquê, não tenho a mesma sensação de prazer, talvez porque não seja possível ver num romance, novela ou conto tudo num só relance.

Todos os artistas sonham com a fama, impulsionados pela vaidade de saberem que há poucos que conseguem fazer aquilo que eles fazem. No caso de Gauguin havia mesmo muito poucos, mas o pintor amador, que nunca estudara em escolas convencionais, não poderia sabê-lo. Talvez tivesse essa suspeita, a intuição, mas não podia saber. Morreu na miséria, carcomido pela doença, certamente cheio de dúvidas. E se falhei a minha vida? E se a mandei fora, para nada?

Perseguir obsessões pode ser mandar uma vida fora. Mas, então, surge este título de Vicent "só é preciso atrever-se". É assim que vemos esta loucura, como sendo apenas coragem?
Li algures, uma vez (infelizmente, tenho procurado a fonte, sem a encontrar) que em Paris, em 1900, havia dez mil pintores. Acho o número gigantesco, improvável, mas sei que li este valor numa fonte que na altura considerei credível, a ponto de memorizar a informação. É muito pintor para uma cidade que teria dois milhões de habitantes, mas pode ser que estivessem ali contabilizadas as numerosas academias, os pintores que chegavam de todo o mundo para aprender na meca da pintura. Também os pintores de paredes, quem sabe? Dez mil, muitos deles com os mesmos sonhos de Gauguin, embora sem o seu talento.
Gauguin pintou cerca de 300 quadros e essa seria a produção de uma carreira relativamente curta. No caso do pintor francês, durou vinte anos, com altos e baixos. Dez mil vezes 300 dá a quantidade fabulosa de 3 milhões de quadros só para uma geração de pintores da passagem do século e do período pós-impressionista, e só em Paris. Se acharmos extraordinário e pouco credível o ponto de partida, podemos dividir por três. Ainda dá um milhão de quadros, todos bem feitos. E quantas obras conhecemos desta época? Cem, pouco mais do que isso? Uma em cada dez mil das que foram produzidas?

Dava para encher mil museus só com uma geração de artistas, mas sabemos que não será assim. É fácil perceber que a arte tem mais a ver com o fracasso do que com outra coisa qualquer. É uma espécie de loucura obsessiva que toma conta de vidas condenadas ao desperdício. E só um em cada dez mil triunfa, milagre que se deve ao atrevimento ou à loucura.
Por mim, gostava de pintar para esse enorme museu, o maior que existe, o museu das vidas desperdiçadas, das obras que nunca ninguém verá, mas que deram tanto prazer a quem as criou, camada a camada, num combate da cor sobre o branco e deste contra a cor. E poder dizer no fim da vida que, embora perdendo a luta contra o esquecimento, quase fui feliz a imaginar a luz. Mas não me atrevo. O medo é mais forte.