quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Consultório do Doutor Benji 2

Doutor Benji, nao entendo o motivo que leva os humanos a gostarem de canídeos. Nao acha estranha essa relacao (Valente, Amadora)?
Sempre achei estranha. O macaquinho humano é um animal complexo, com emocoes básicas de grande variedade. E uma delas é o chamado masoquismo. Os humanos gostam de sofrer. Veja como seguem os seus caes, apanhando em sacos de plástico todos aqueles dejectos mal cheirosos. E devem cumprir o horário do animal, que nem sequer é inteligente e, como toda a gente sabe, nunca tem vontade própria e faz tudo o que lhe mandam, excepto cagar a uma hora diferente.
O meu dono tem a mania de me fazer aquilo que a que ele chama "partidas". Ontem, encheu a minha comida de picante Eros Piszta. Doutor Benji, que fazer? (Mirtzi, Budapeste)
Os macaquinhos humanos acham-se muito divertidos. E usam uma emocao, o humor, que nós, gatos, felizmente nao temos. Quando o seu dono persistir numa "partida" e desatar a rir, tente exercer uma retaliacao á altura, por exemplo, roendo os cabos do computador, fingindo que foram ratos a destruir os fios. O seu dono pensará que há uma infestacao na casa, atribuindo-lhe a tarefa de matar os invasores. Faca questao de nao matar nenhum, o que nao será dificil, pois nao haverá ratos a sério na casa. E quando roer os cabos do computador, nao se esqueca de que a máquina deve estar desligada da electricidade.
Doutor Benji: a minha dona nao pára de me dar festinhas na nuca. Por vezes, é agradável, mas quase sempre se torna excessivo, até porque sou uma gata. (Fifi, Porto)
Minha querida, a situacao pode, de facto, ser embaracosa, mas nao há muito a fazer. Para termos a vida que temos, sem sermos obrigados a enfrentar o mundo selvagem, precisamos de disponibilidade para algum sacrificio, como é o caso de darmos a ilusao aos macaquinhos humanos de que gostamos muito deles. Por isso, quando receber festinhas da sua dona, tente ronronar com conviccao.

Retirado de Vida Gatal 11, escrito num teclado para gatos

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A mão de Appolinaire



O magret de pato com mel e especiarias acompanhado por batatas salteadas é a 25.50€ no Les Deux Magots, Saint-Germain-des-Prés, Paris. Não é sítio que hoje se aconselhe ao comensal de tão turístico que se tornou, mas era aí que parava - entre outros lugares como o Lapin Agile ou a Closerie des Lilas - Guillaume Apollinaire, baptizado Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary Kostrowicki.
Numa biografia onde se torna difícil, por vezes quase impossível, destrinçar o ficcionado do factual, George Vergnes descreve um episódio passado em 1912 e envolvendo Appolinaire, a sua amada e então musa Marie Laurencin, Louise  Faure-Favier e Max Jacob. A certa altura, Max inicia uma ronda de leitura da sina nas mãos dos convivas, reunidos num jantar em casa de Appolinaire na Rue de La Fontaine. Até que chega a vez de Guillaume:  

«Os deuses chamam cedo a si aqueles que protegem - disse Max Jacob - Não foste tu que escreveste: os poetas têm o direito de esperar, depois da morte, a felicidade perdurável que o pleno conhecimento de Deus lhes assegura, isto é, a suprema beleza? Conhecerás cedo essa felicidade perdurável, Guillaume. Não entrarás nem na "Revue des Deux Mondes" nem na Academia Francesa. Vejo uma vida curta e a glória da tua morte. Vejo...
- Idiota!
E Max, evitando à justa a bofetada que Guillaume lhe destinava, esquivou-se. Enquanto Dalize e Billy se interpunham, agarrou-se à mão de Marie Laurencin. Fez o ar mais inspirado e anunciou:
- Você, Marie, conhecerá também a glória, mas em vida...Deixará em breve Paris, passará muito tempo no estrangeiro...partirá...oh! com o seu marido, porque vai casar-se brevemente... 
Max Jacob teve um tempo de hesitação e disse como se se lançasse à água:
- Vejo. Casar-se-á com...um jovem pintor!»

O relato descreve que, nesse momento, «a mão de Guillaume partiu e estalou na cara do profeta». Appolinaire morreria apenas seis anos mais tarde e Marie partiria, pouco depois desta sessão de quiromância, para o exílio em Madrid acompanhada pelo marido o Barão Otto von Waetjen, o qual ignoro se terá sido pintor. A 17 de Fevereiro de 1915, Marie assina como "amiga" esta oferta para Guillaume. Judeu, Max Jacob não sobreviveu ao campo de Darcy e morreu em 1944. Não sabemos se terá antevisto, nas linhas da mão, o seu próprio destino. 
    
Na imagem: "Guillaume Apollinaire et ses amis", óleo sobre tela de Marie Laurencin, 1909








sábado, 14 de agosto de 2010

No tempo do Grand Hotel



Na Praça Duque da Terceira, no lado oposto à estação de comboios do Cais do Sodré, existia outrora o Grand Hotel Central. Aí jantou Júlio Verne, em 1878, com o seu editor para Portugal David Corazzi e o amigo e banqueiro Jorge O'Neill. Mas a imortalidade do Grand Central ficaria definitivamente salvaguardada pelo relato de um jantar dedicado a outro banqueiro, aquele que Eça nos descreve em "Os Maias" elevando o repasto à categoria de retrato social de todo um Portugal inerte: 
"Ega teve uma conferência com o Maître d'hôtel do Central, em que lhe recomendou muita flor, dois ananases para enfeitar a mesa, e exigiu que um dos pratos do menu, qualquer deles, fosse à la Cohen; e ele mesmo sugeriu uma ideia: tomates farcie à la Cohen".
A ideia não seria aceite. Mas depois do vermute - "uma gotinha para o apetite" nas palavras de Dâmaso Salcede - "Um criado, entrando, acendeu o gás; a mesa surgiu da penumbra, com um brilho de cristais e louças, um luxo de camélias em ramos".
Depois das ostras, a sole normande. E entre esta e o poulet aux champignons, o banqueiro Cohen solta a frase que ainda hoje se mantém intacta na imutabilidade do desequilíbrio entre o deve e haver dos cofres públicos: "A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, falir o país...". Discute-se. O Ega grita: "Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola". E, então, chega finalmente o prato de ervilhas num molho branco. São as petits pois à la Cohen. A bancarrota é esquecida, abre-se o champanhe e o Dâmaso declara o baptizado legume, como tudo o resto, "chique a valer".


A estratégia segundo Átila, o Huno

Átila achava que o povo Huno precisava de novos desafios e pensou em...
"...Foi entao que me surgiu a ideia de escravizar os ostrogodos, a ponto de lhes tirar o ostro do nome".
Os conselheiros de Átila ficaram pálidos e silenciosos. O imperador apontou para Álmos e deu-lhe a palavra:
"Na minha qualidade de conselheiro imperial", afirmou Álmos, "digo a sua preclara majestade que é preciso analisar esta problemática em todos os seus complexos angulos. A realidade tem múltiplas facetas e recomendo que seja formada uma comissao para estudar as implicacoes da escravizacao dos actuais ostrogodos e futuros godos, sobretudo do ponto de vista da paz internacional e da amizade entre os povos".
"Muito bem", disse o imperador dos hunos, antes de dar a palavra ao seu conselheiro Kund, que falou desta maneira:
"A reaccao dos mercados deve ser ponderada, ó magnificente figura. Quais as implicacoes para a divida soberana, como vao evoluir os spreads e o que acontecerá á nossa moeda face ao sestércio romano?"
Átila o Huno estava visivelmente impressionado com a qualidade dos seus conselheiros, a ponto de ter colocado outro problema:
"Roma nao quer pagar mais tributo e pensei em invadir a Itália. Sempre quis ter escravas romanas. Dizem que as mulheres latinas sao fogosas..."
"Ó magnifico ditador da classe operária", comecou Álmos, "temos de estudar as implicacoes dessa medida tao drástrica. Roma tem solidez ideológica, nao será o mesmo que esmagar os ostrogodos. Deviamos formar um novo ministério para ponderar a accao, mandar prender alguns contra-revolucionários e nacionalizar os meios de producao".
Foi a vez de Kund tomar a palavra:
"Pelo contrário. Temos de privatizar, desregulamentar e liberalizar. Escravizar mulheres latinas, ó espaventoso académico, vai aumentar o número de consumidores e de contribuintes, promovendo o crescimento da economia, mas também aumentará a divida externa, tornando mais dificil o investimento. E nao se esqueca de que ao sairmos para o estrangeiro estamos a fazer importacoes. Só nos restará proceder a um lamentável aumento de impostos, quando a economia precisa de menos impostos. E os mercados financeiros podem reagir mal á destruicao da bolsa de Roma. Podiamos antes diversificar o nosso investimento e, em vez de recebermos o tributo romano, há sempre a hipótese de apostarmos em especulacao nos mercados de futuros, por exemplo, comprando petróleo, que dentro de mil e quinhentos anos estará muito valorizado".

Átila ficou satisfeito com a qualidade dos conselhos que recebera. Decidiu nesse mesmo dia avancar contra Roma, mas nao sabia o estado das estradas até á fronteira. Álmos era o responsável pelo primeiro troco e Kund pelo segundo. O imperador dos hunos convocou os seus ministros e perguntou-lhes sobre as estradas.
Disse Álmos: "Ó, pilar da humanidade, a construcao atrasou-se devido á prudencia com que abordámos a tarefa. Criámos um empresa pública onde foi gasta a maior parte da verba, para pagar subornos e cargos inúteis na administracao. E os trabalhadores, como nao recebiam salários, roubaram os materiais".
"Nao faz mal", disse Átila, "Vamos a corta-mato na primeira parte do caminho, até chegarmos ao segundo troco".
"Infelizmente", atalhou Kund, "ó estratosférica personagem, isso nao será possivel, pois o segundo troco sofreu atrasos e revisoes orcamentais que encareceram tres vezes o empreendimento. As empresas privadas romanas que estavam a construir a estrada pedem brutas imdemnizacoes por quebra de contrato e o tesouro ficou comprometido por dez anos. A única saida será reduzir para metade o rendimento médio dos hunos, ou seja, impopulares medidas de austeridade".
O imperador pensou um pouco e concluiu:
"Está decidido. Vamos a cavalo. A paisagem é bonita".
Os ministros ficaram em extase:
"Que carisma, que capacidade de lideranca. É o melhor lider dos Hunos desde o século III antes de Cristo", dizia um.
"Se houvesse eleicoes livres, vencia facilmente", dizia o outro.

Retirado de Dez Licoes de Estratégia de Átila o Huno
Traducao de Luis Naves, que usou um teclado godo     

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O consultório do dr. Benji

Nao sei o que fazer, doutor Benji. A minha dona anda numa histeria, sempre ao telefone, á procura de namorado... (Lulu, Lisboa)

O importante, minha querida, é nao perder o controlo da situacao. Nunca se esqueca de que os macacos humanos, sendo espertos, nao possuem a nossa inteligencia. Em caso de emergencia use o meao-meao-rreerree, ao qual eles nunca resistem. E quando a sua dona encontrar um companheiro compativel da sua espécie, procure ignorá-lo completamente, até a macaquinha dizer ao amigo que a relacao nao é possivel "pois os gatos nunca se enganam no carácter humano", o que aliás é verdade. Mas convém nao exagerar: se a sua dona encontrar um companheiro incompativel com ela, finja que gosta muito do macacao.

Doutor Benji, o meu dono comprou um porquinho da India e deixou de me dar atencao. Que fazer? (Tonecas, Cascais)

Parece que a solucao é óbvia: despache o porquinho da India, mas de forma a que pareca que ele foi vitima de uma doenca contagiosa. Os macaquinhos pensam que nós nao sabemos abrir portas e supoem, erradamente, que os porquinhos da india estao seguros nas suas jaulas. Quando esmagar os ossos ao porquinho da india tente nao fazer muito sangue ou deixar rastos que possam ser detectados por uma equipa CSI. Nao se preocupe com as impressoes digitais. E nao se esqueca de que a pelagem destes animais pode sufocar um gatinho. O problema terá de ser abordado com prudencia e eficácia, de preferencia de noite. Ah, e nao se esqueca de fechar a porta da jaula.

Os meus donos dao-me sempre a mesma racao para gatos. É horrivel e industrial. Que fazer, doutor Benji? (Faisca, Lisboa)

É uma situacao insuportável. Liberte-se, utilize a máxima crueldade. Destrua algo que seja sagrado para os seus donos, por exemplo, o novo aparelho de TV em plasma. Considerando a programacao, está a fazer-lhes um grande favor. Outra hipótese é urinar no dispendioso sofá novo. Verá que vai sentir algum alivio. O protesto, naturalmente, garantirá uma alimentacao mais saudável, á base de salmao e frango. Nunca se esqueca de que é voce quem controla a relacao com os humanos. Eles estao ao nosso servico, nunca o contrário.

Doutor Benji
Retirado da revista Mundo Gatal, número 5, escrito num teclado para gatos

Panteísmo e morcelas


O episódio é contado por José Calvet de Magalhães em "Antero - A Vida Angustiada de um Poeta". Em 1863, Antero de Quental (então ainda estudante em Coimbra) foi viver para uma casa na Rua da Trindade, onde moravam também os irmãos Alberto e José Sampaio, Frederico Filémon da Silva Avelino e Eduardo de Andrade.
Numa tarde de estudos em conjunto, Antero cansa-se da leitura partilhada da sebenta e deita-se com as botas ainda recobertas de lama sobre a cama de José Sampaio, resmungando por diversas vezes: «Acabem lá com essa maçada!».  Como os amigos não lhe fizessem a vontade, ruma até à cozinha para assistir aos preparativos da ceia, que incluia sardinhas fritas e morcelas de Arouca. A partir daqui, reproduzo as palavras de Calvet de Magalhães:
«Acabado finalmente o estudo, juntou-se ao grupo Eduardo de Andrade, que estudava para o seu quinto ano noutro quarto, e chegou mais outro convidado, um primo de Antero. A ceia principiou por um excelente caldo bem quente, seguindo-se as sardinhas fritas, aguardando todos com impaciência as deliciosas morcelas de Arouca. Foi Filémon quem as provou primeiro para, fazendo uma careta, as cuspir logo, horrorizado, o que fizeram também os outros companheiros. Só Antero, impávido, comia, dizendo que lhe sabiam bem. Chamou-se a criada e foi-lhe perguntado o que diabo tinha feito às morcelas que sabiam tão mal. A pobre mulher respondeu:
- Eu, meus senhores, não sabia como isso se cozinhava. Nunca tinha visto dessas chouriças amarelas e quem as cozinhou foi o senhor Antero.
- Mas o que é que deitaram nas morcelas? - perguntou alguém.
- O senhor Antero - retorquiu a criada - depois de eu ter frigido as sardinhas, frigiu no mesmo tacho as tais chouriças, que os senhores chamam com esse nome!
Todos se lançaram em invectivas contra Antero, injuriando-o, mas este, muito calmo,  limitou-se a dizer:
- Sois uns tolos e com um bem esquisito paladar! Que importa que se misturem morcelas com sardinhas! Tudo é matéria. Ou bem que somos panteístas, ou bem que não somos!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A lista telefónica

O professor Herzog decidiu, por brincadeira, memorizar a lista telefónica de Budapeste. A lista de 1935 era, apesar de tudo, um livro grosso.
Os amigos ficavam espantados quando acertava nos números. Liam um nome e Herzog dizia o número de telefone da pessoa. Aquilo impressionava muito, pois revelava a prodigiosa memória do professor, cujas investigacoes, aliás, nunca produziram grandes resultados.
Enfim, veio a guerra, depois o regime comunista. A universidade perdera muitos dos seus talentos, mas lá continuava o prodigioso professor que sabia de cor a lista telefónica de Budapeste de 1935.
Uma vez, chegou um comissário do partido e ouviu falar naquele caso e nao resistiu a fazer ele próprio um teste.
Pediu uma lista telefónica de Budapeste do ano certo e escolheu um nome. Disse-o em voz alta e Herzog acertou logo no número.
"Como é isto possivel?" perguntou o comissário.
"Nao sei", respondeu o professor.
"Só é possivel porque vivemos num pais socialista", sentenciou o comissário e, por um instante, ocorreram-lhe várias ideias para usar aquele talento de Herzog. Mas logo se lembrou que o velho professor memorizara a lista telefónica de 1935, que pertencia a outra era.
O conhecimento inútil do professor Herzog perdeu-se para sempre quando o académico faleceu, de uma banal pneumonia, aos 87 anos, já durante a década de 70, quando o regime suavizava os seus rigores.
Mas na universidade ainda hoje se fala na fantástica memória do professor que sabia de cor a lista telefónica de Budapeste de 1935.
As pessoas que contam a história enganam-se muitas vezes no nome e chamam-lhe Herceg, e Ferenc em vez de István. Alguns contam mal o episódio do comissário e transformam Herzog num anti-comunista, que ele nunca foi. Outros, enganam-se no ano da lista telefónica. 1936 aparece na maioria dos relatos.
Herzog nunca descobriu o que procurava. Julgo que era fisico e que tentava chegar a uma teoria cosmológica, fazendo cálculos que se perderam num estúpido incendio, em 1999, onde se perderam também muitos papéis da universidade e uma lista telefónica de 1935.

Lajos Kormanyos
(traducao do hungaro de Luis Naves)