quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Jardim Botânico


Esta é a capa do meu próximo livro, "Jardim Botânico". O romance será publicado muito em breve pela Quetzal e estará nas livrarias a partir de 5 de Fevereiro.

Este pequeno texto na contracapa poderá esclarecer melhor os leitores sobre o tema:
"Em Junho de 1998, estalou uma inesperada rebelião militar na Guiné-Bissau. Não estavam em causa questões étnicas ou religiosas, mas sobretudo a rivalidade entre dois homens, o Presidente Nino Vieira e o chefe das forças armadas, brigadeiro Ansumane Mané. A rebelião provocou um curto período de guerra civil, que durou sete semanas. Seguiu-se quase um ano de impasse e uma década de alta instabilidade. Na realidade, a Guiné nunca recuperou daquele episódio (...)".

Podem ler aqui um excerto do texto:
"Falaram de tudo e de coisa nenhuma, passeando ao acaso entre as ruas estreitas, abordados por cada um dos vendedores do mercado, que lhes falavam em francês. Ana comprou um lenço vermelho, que pôs ao pescoço, e aquilo deu-lhe um encanto imprevisto. Era daquelas mulheres que, por vezes, quase se tornam belas. Sobretudo quando sorria, mais feliz e distraída com os sons da vida. Vestia calções e usava botas grossas, e a brancura das pernas contrastava com a riqueza do colorido temperado no tumulto humano que os rodeava."

"Jardim Botânico" é a minha quinta obra de ficção e o meu quarto romance. Publiquei dois na Campo das Letras, "O Silêncio do Vento" (1998) e "Os Reis da Peluda" (2003), além de uma novela, "Homens no Fio" (2005). Na Quetzal, publiquei o romance "Territórios de Caça" (2009). O meu trabalho na área da ficção inclui uma dezena de contos publicados em diversas revistas e ainda pequenos contos e crónicas nos blogues literários colectivos Prazeres Minúsculos (2005-2007), As Penas do Flamingo e aqui, nas Emoções Básicas.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

E os livros perderão a sua magia


O politicamente correcto chegou a este ponto, de pegar num clássico americano e tirar-lhe o sabor de uma linguagem de época, alterando subtilmente duas palavras, negando-lhe o sentido original, tirando-as do contexto histórico. As palavras malditas são "nigger" e "indjun", substituídas por "escravo" e "índio". Muitas pessoas são contra, naturalmente, e proliferam os protestos. As edições originais de Huckleberry Finn ainda serão publicadas, embora imagine que no futuro muitas bibliotecas prefiram a edição revista. Ainda por cima, Mark Twain não era racista, tentara captar a linguagem que de facto existia no tempo da sua infância, nas margens do grande rio Mississippi.

Hoje, num mundo onde as ideologias se esbatem, triunfa uma espécie de puritanismo de comportamento, muito autoritário e fingidor, que atrás da capa da hipocrisia impõe a visão sanitizada da História. É uma forma de revisionismo, de limpeza de arquivos, no fundo como faziam os soviéticos nas famosas alterações de fotografias dos dirigentes comunistas, em que as pessoas que caíam em desgraça íam desaparecendo dos factos.
No nosso mundo digital, onde cresce a incerteza sobre o que é real e o que foi manipulado, esta mudança constante dos padrões da verdade é ainda mais fácil de realizar do que num passado que inspirou 1984 de George Orwell.
Talvez este seja o mundo do futuro, em que os escritores já não terão qualquer certeza sobre aquilo que verdadeiramente escreveram. Na qualidade de clássicos, os seus textos serão alteráveis pelas circunstâncias, adaptados ao novo tempo, acrescentados e diminuídos conforme a conveniência ideológica do momento, numa actualização permanente dos valores que tentaram transmitir.
Os livros deixarão de envelhecer, na realidade, mas o preço será o de perderem parte da sua magia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Carta do Pai Natal a um disperso escrevedor (Ao abrigo do direito de resposta e ainda a tempo do Dia de Reis)

Meu Caro Jovem
Perdoe-me a demora na resposta. Sucede que, polémicas à parte, continuo muito solicitado e andei ocupadíssimo, primeiro nas lides habituais, depois compensando a minha mulher pelas longas horas fora de casa.
Foi com profunda tristeza, alguma complacência e a máxima arterial a 170 que li e reli as suas desalentadas palavras. Vasculho na minha história, sondo de ponta a ponta a minha consciência, e não encontro passos merecedores de tamanha diatribe. Creio que apenas a sã irreverência, própria da juventude cinquentenária do meu amigo, justifica tal tratamento a um idoso como eu. Bem me avisou em tempos certa astróloga: por volta dos meus 115 anos, uma grande arrelia chegaria por correio e, de tão contundente, far-me-ia crescer (Ainda perguntei "Crescer mais?? Para quê? Mas ela lançou-me um olhar reprovador).
Sou pessoa sensível e magoaram-me algumas das suas farpas, quer as de natureza mais filosófica, quer as alusivas à minha aparência. Sem cerimónias, eis o que se me oferece dizer sobre as primeiras:
Mas agora tenho de levar a toda a hora com a lengalenga anti-consumo a pretexto dos primórdios da minha existência? Por dá cá aquela palha, salta alguém a responsabilizar-me pela agressividade mercantil da marca que me inventou? É injusto e é absurdo.
Injusto, porque eu não tenho culpa das minhas origens. Não podemos arcar pela vida fora com o ónus das opções e acções dos nossos progenitores. Absurdo, pela questão dos prazos de validade: as alianças fazem-se e desfazem-se. No meu caso, mergulhei directamente do acto de criação para uma tarefa especificamente comercial, é verdade. Foi nos anos 30 do século passado. Mas onde é que isso já vai! Há que tempos ninguém me vê agarrado a um dístico de refrigerantes. É como um indivíduo divorciar-se e passada uma década ainda lhe falarem constantemente da ex-mulher. Desagradável. Ainda por cima são essas vozes de revolta mal dirigida que alimentam, nesta quadra e gratuitamente, o portentoso caudal de publicidade à referida marca, pois, como sabe, nos códigos do marketing o que importa é ser-se falado, bem ou mal.
Quanto a promover o consumismo: Eu? Eu, que só saio da toca duas ou três semanas em Dezembro? Então os outros onze meses do ano? Sou eu que canalizo milhares para formigarem pelos centros comerciais das vilas e cidades nos fins-de-semana de sol, nas tardes de primavera? (Dou este exemplo, por me constar que o seu país vai à frente nesse distinto passatempo).
E antes que lhe ocorra imputar-me as enormes desigualdades materiais das famílias, digo-lhe já que reclame noutra secção, com quem fez o mundo assim. Limito-me a entregar o que me mandam - sou apenas o estafeta. Abracei o projecto de distribuir prendas aos miúdos porque me identifiquei com ele. Comecei como mero assalariado, nunca subi na hierarquia, não pedi para ser a estrela do consumismo sazonal do ocidente, e há muito que opero na base do voluntariado responsável. Faço o melhor que posso.
Acredito ter conquistado, assim, o direito a uma existência autónoma, digna e íntegra. Não sou avalista de todas as palermices que inventam a meu respeito, e sou alheio às réplicas da minha pessoa empoleiradas aí pelas varandas. Alguém, nesta época de twitters e facebooks, poderá assumir os usos indevidos da sua imagem globalizada? Se vamos a matutar nisso, será melhor eu pôr-me a despejar tranquilizantes pelas chaminés abaixo.
É verdade que já poderia ter arrumado as botas. Mas, por um simples erro de génese, vestia agora um fato de treino e enterrava a cabeça nas neves da Lapónia? Não. Como é ingénuo o meu amigo, ao pensar que me movem as comissões das grandes multinacionais. O meu intento é outro. É adiar o face-a-face com a solidão na velhice, é resistir ao medo terrível da inutilidade. Há muito que me sinto escorregando num plano untado a sebo de rena, inclinado a 30 graus sobre a fenda escura da morte. Esta sensação é comum na minha idade e até em pessoas mais novas. Passar a noite de Natal voando pelos céus, nas asas da imaginação, nossa ou de outros, é a minha forma de me agarrar a qualquer ressalto ou cavidade que encontre nessa supefície ímpia. É a minha forma de iludir um tempo que corre muitíssimo mais veloz do que me foi prometido no início da minha existência.
Quanto ao menino Jesus, nada contra. Nutro um carinho de avô por esse eterno bebé, e além disso há mercado para os dois. Tenho alguma vaidade por reunir o consenso entre as famílias que não se revêem nos episódios e personagens bíblicas, mas ninguém me ouvirá uma palavra menos cortês sobre a concorrência. Excessos de competição são desaconselhados na minha idade e esvaziam-nos de energia anímica. Já a quebra de popularidade do Pequeno no coração das pessoas, palpita-me que se deve, isso sim, à incorrigível soberba da massa católica, dos marechais aos soldados rasos.
Por fim: A minha fatiota. Que é que tem?? Eu gosto. O vermelho significa alegria e tonicidade, qualidades nada de desprezar num velho. Além disso, como sou forte, nem tudo me assenta bem. Efectivamente, já nasci com este índice de massa corporal, e ninguém se penaliza mais por isso. Não poderia adoptar uma tanga tipo Jesus, que praticamente nasceu nos trópicos, e também não estou para imitar o São Nicolau: o púrpura e o marfim não me favorecem e as vestes compridas travam-me os movimentos.
Dito tudo isto, meu jovem amigo, estou consigo no desalento perante um Natal esvaziado de sentido. Porém, na tresloucaria refinada que é Dezembro, eu não vejo tanto a ânsia de consumir e possuir - vejo mais a urgência das pessoas em quebrar a rotina a todo o custo, em encher os dias com objectivos palpáveis e próximos, passos e palavras especiais, ainda que frívolos e fugazes. O espírito até existe, mas agora é outro. Jesus cresceu. A humanidade está para lá de madura.
Deste, que afectuosamente o compreeende,
Pai Natal

domingo, 26 de dezembro de 2010

As múltiplas camadas


A escrita de jornal faz lembrar a música ligeira que passa na rádio. A informação é simples como uma melodia, faz parte do quotidiano, mas ninguém lhe presta verdadeira atenção. Ouve-se no carro, no meio da fila de trânsito, ou distraidamente em casa. Tem consumo rápido e absorve-se da mesma forma que o alimento básico. E a uma canção segue-se outra parecida, criando-se a rotina e o hábito.
Por vezes, quando ouvimos uma música particularmente feliz, queremos saber quem a cantou. Mas isso é raro. Geralmente, este é um mundo quase anónimo, que se esgota em pouco tempo. Mas há excepções e é possível que uma canção popular resista décadas.

A escrita de blogue também é efémera. Faz lembrar aquilo que ouvimos num clube de jazz. A atmosfera é densa, do fumo, das sombras, das conversas murmuradas; no palco, os músicos tentam divertir-se com improvisações e peças mais meditadas, onde investiram uma dose de criatividade. Mas o público está meio desatento. Por vezes, fixa a atenção num ponto apenas agradável ou deixa-se embalar num curto sonho. As pessoas que vão ao clube de jazz querem ver virtuosismo, sem compreenderem que este domínio da técnica faz parte do fogo-de-artifício e, por definição, consiste num género de espectáculo sobretudo vazio de conteúdo, embora vistoso.
Gosto de clubes de jazz, embora não entenda muito bem as pessoas que não sabem apreciar o ambiente e não respeitam os músicos, a ponto de fazerem barulho, como se estivessem na pista de dança para se mostrarem.

A escrita literária é exigente. Lembra um quarteto de cordas. Há espaço para interpretação, até para a pequena liberdade fiel à época, mas tudo se baseia num trabalho silencioso e a prazo que visa a perfeição inalcançável entre várias vozes que têm a sua própria personalidade. Há modelos de base, anos de estudo, exames difíceis, formas a respeitar, tradição a conhecer. Exige cultura sólida e tempo de treino.
A literatura é complexa e o público tem dificuldade em distinguir as boas interpretações. Por vezes, há um nome que os media repetiram, recomendado por especialistas. E aquele estilo torna-se na bitola que se exige depois a todos os outros quartetos, o modelo dos clássicos.
E o que se pretende? A precisão milimétrica, mas sem perder o carácter. Não existe arte sem espontaneidade. Mais importante ainda será a sinceridade do intérprete. Quanto mais exposto e vulnerável, maior a vibração, a intensidade e a força.
À medida que procuramos a essência humana nas camadas sucessivas de escrita que vamos escavando, o que encontramos é fragmentado e menos claro, mas também mais profundo. É o que fica do nosso passado, a verdade íntima que não poderíamos confessar de outra forma. Porventura as cinzas daquilo que arde no nosso espírito.   

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Chegamos a gostar de pessoas que não conhecemos

Um email. Agradeço o convite, ignoro condicionantes de tempo, claro que aceito escrever no Emoções. Conheço todos, de outras paragens blóguicas, excepto o Pedro Beça Múrias. Investigo: há posts recentes, entre um poema de Teixeira de Pascoaes e uma desmusa de olhar hostil. Há o Facebook, onde topo com um sorriso ao longe, uma cabeleira laranja, uma menina às cavalitas. Fico com uma ideia, fico a gostar da ideia com que fico, sigo em frente.
É uma ideia low profile, não se impõe, deambula por ali, bolhinha translúcida e livre. As bolhinhas são as imagens, ocupando poucos bits, de pessoas que sabemos mas não conhecemos.
Sem tempo para abraçarmos novos outros com o espaço de antigamente (dizem..), é contudo possível circularmos por aí com uma ou duas bolhinhas dentro de nós. Ou mesmo, sem levantar suspeitas, vivermos com um interior enfeitado de bolhinhas pé-de-seda , vogando algures num limbo onde o cérebro não magica e o coração faz contas. Uma espécie de efervescência zen.
Falo por mim. O Pedro BM era uma das minhas bolhinhas. Dele, que amigos comuns me descreveram como um amor de pessoa, eu não cheguei a saber se tinha por hábito passear em shoppings desertos ao início da manhã, se era homem para gostar de rosas a cheirar a chá, se embirrava com o cinismo de alguns jurados de televisão ou enjoava no eléctrico para a Graça. Dele só tive a respectiva bolhinha ideal.
Quando finalmente se conhece alguém, sucede a bolha em causa romper-se face à realidade, a qual, com sorte, fica a ganhar-lhe. Outras vezes, ao medirem-se frente a frente, bolha e pessoa, fantasia e realidade fundem-se, anulam-se mutuamente e nunca mais se ouve falar delas. Outras vezes ainda, uma bolhinha desperta na brutalidade de uma notícia, incha na certeza de que nenhuma realidade tomará um dia o seu lugar - e dissipa-se então num texto inábil, numa veleidade informe que, por bem intencionada, espera não ofender ninguém.
Porque, se é verdade que por vezes não conhecemos suficientemente bem as pessoas de quem gostamos, também chegamos a gostar de pessoas que não conhecemos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Desencontros


Pensara, sem o dizer de forma explícita, que a paixão era exagero, como o trovão ou a dor de dentes. A eternidade, um museu de silêncio. E as palavras, solas gastas de caminhar no chão duro da estrada.

A febre, a congestão em torno da garganta, perturbavam-lhe o raciocínio. Queria explicar aquela repentina ideia de não poder existir na ausência dela, mas estava a fungar do nariz e sofreu um irreprimível espasmo que lhe contraiu o peito, como se um elefante se tivesse sentado sobre as suas costelas; e houve aquele desejo enorme de se libertar do peso concentrado nos músculos, a vontade de explodir como um guerreiro santo. E foi isso que fez: espirrou com liberdade e alívio na direcção da mulher que (descobrira isso cinco segundos antes) começara a amar com uma forma de paixão que era exagero. O espirro soou a trovão. Felizmente, não sentia dor de dentes, isso seria azar histórico, já que tinha uma dor de cabeça que se acumulava como gás liquefeito em lata de estanho fino.

Mal tivera tempo para tapar a boca com a mão. A rapariga recuou do espirro e olhou para ele, com uma expressão assassina. Sentiu-se trespassado por mil agulhas de angústia alheia. Os outros passageiros tentavam virar as costas e, de facto, ficaram só os dois a olhar-se um ao outro, num confronto, como amantes zangados, cercados pelas costas ostensivas dos passageiros, que tinham criado um muro de betão para a privacidade deles.
O autocarro deu um súbito solavanco e imaginou que alguém tivesse atropelado um cão solitário, ou algo assim, mas tinham passado por dentro de um buraco cheio de água, formando uma onda que vergastou o passeio onde duas velhinhas tentaram ainda, com os seus frágeis guarda-chuvas, impedir a chapada de água. Um dos guarda-chuvas era amarelo, o outro encarnado. Ficaram ambas as velhinhas a pingar e a gritar para os passageiros da traseira do autocarro, que tinham contribuído para a temível onda. Lembrou-se da história da borboleta: o seu peso ajudara a provocar um mini-tsunami urbano.

As costas dos passageiros oscilavam para cima e para baixo, das gargalhadas que se ouviam sem se ver. Era um pouco como o espasmo antes do espirro, mas só com riso.
Distraído no seu casulo, sabia que se transformara num pária, a enfrentar a sua amada assassina, que não se conseguia virar de costas, presa entre os corpos comprimidos. Ela tinha caracóis louros e um olhar doce, agora transtornado. Os germes da constipação tinham voado por toda a cabina. Era inverno e estas coisas propagam-se, pensou, filosoficamente.
Em breve, a gripe estaria em todas as cabeças e ainda sentiu uma espécie de formigueiro, ao aperceber-se do museu de silêncio que cobria a eternidade. Uma mulher gorda olhou-o com fúria, mas ele sorriu-lhe em resposta, no exacto instante em que rebentou num imparável impulso de tosse cava. Tossiu, tossiu, libertando-se das entranhas. E a rapariga por quem se apaixonara deve ter sentido um pouco do bafo quente da sua respiração, moveu pobremente o braço, desalentada, e inspirou profundamente, embora não o quisesse fazer.
Por vezes, as pessoas fazem o contrário do que querem.

O autocarro chegou à paragem inundada e travou com estrondo. Os passageiros tombavam uns em cima dos outros, mas é o mesmo que acontece com os pinguins (vira isso num documentário) protegem-se uns aos outros com os corpos, amparam-se e não caem. Imaginou: se os pinguins caírem, será uma queda em dominó.
Saiu do autocarro e sentiu o vento refrescado. Era inverno e encheu os pulmões com ar impuro da cidade. A rapariga também saiu naquela paragem, dirigindo-lhe um insulto de despedida. Nunca mais a veria. Um amor morrera à nascença. Observou-a melhor, olho de perito: não perdera nada de especial, tirando os caracóis louros e a expressão doce.

E em passos cada vez mais febris, largou as solas dos sapatos molhados no chão escuro e endurecido da estrada. Alcatrão do melhor, lisinho e lixado.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Esse é o teu nome

Se deixarmos que o nosso Outro esqueça

esse nome que tivemos para Ele,

não mais beberemos das infantis marés

ébrias de Sol e prata cintilante.


Faremos a última viagem

clamando no topo do mastro, através desses dias

impelidos por azulada fúria

sem bancos de jardim ou beijos e bicicletas.


Se permites que o teu nome secreto se perca

eis que algo morre e viral arrasta nessa morte,

para sempre,

o quase Deus que vos ungiu.


Defende esse nome com a própria carne,

a tremeluzente dor vermelha de existires.

Ergue as memórias e os desejos,

espadas flamejantes perante os teus olhos fechados.


Não desistas e guarda cada uma das vontades

entre o vazio de todas as gavetas que tens dentro,

porque transparente e invisível

é aquele que se esquece de si mesmo.