segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O meu caminho


Portugal vive inundado de cultura anglo-saxónica, repetindo talvez a obsessão da nossa elite, há um século, por tudo o que soava em francês. Devido à uniformização do gosto, temos deixado para segundo plano russos, escandinavos e centro-europeus em geral, mas também os brasileiros, o que talvez explique a relutância nacional em ler bons contos.
Nas línguas exóticas da Europa Central, o húngaro é particularmente impenetrável. E é pena, porque um dos seus escritores, Dezsö Kosztolanyi, é sem dúvida um dos maiores autores europeus do século XX.
Há um livro seu disponível, Cotovia, magistralmente traduzido do húngaro por Ernesto Rodrigues. O volume, da D. Quixote, encontra-se ainda nas feiras e livrarias e julgo que este romance atinge o patamar de perfeição de autores consagrados da mesma região, como Joseph Roth ou Robert Musil. Se o encontrarem em saldos, não hesitem. É a história de um casal de pequenos aristocratas cuja filha foi viajar. Eles não sabem o que fazer naqueles dia e os leitores acompanham-nos na sua redescoberta dos prazeres, mas também da constatação da velhice, decadência, solidão e vida provinciana. A cidade é inspirada na terra natal do escritor, Sabadka, hoje Subotica, na Sérvia. E a leitura deste livro repleto de humor e poesia permite compreender muito melhor o que aconteceu de terrível na Europa Central no último século. 

Contemporâneo de Musil e de Fernando Pessoa (três anos mais velho do que o poeta português, sobreviveu-lhe um ano) Kosztolanyi era sobretudo poeta, mas tem obra em prosa, com quatro romances importantes e dezenas de notáveis contos. Era primo de um escritor brilhante, Csath Géza, cuja vida dava um filme; foi também um dos fundadores da revista modernista Nyugat (Ocidente) e amigo de outro escritor de enorme originalidade, Gyula Krudy, um impressionista que inventou um estilo a que hoje se chama "realismo mágico". Krudy é figura ímpar e personagem quase inacreditável da história da literatura da Europa Central.

Vem este post a propósito de um conto de Kosztolanyi que encontrei numa colectânea de contos húngaros de 1941, da editora Gleba, onde constam alguns dos autores então conhecidos. Certamente traduzido do francês, pois o nome do escritor surge como Desirée Kosztolanyi.
O conto, O Meu Caminho, é uma jóia de humor. Muito curto, está dividido em nove pequenos fragmentos onde se conta a história de um homem, o narrador, que tenta conquistar o seu lugar num eléctrico repleto. Num dia muito frio vemos o eléctrico a sair do nevoeiro; "está cheio", dizem lá de dentro, mas o homem decide entrar, com o pé no estribo e o perigo de cair e de morrer; ele sente o desprezo dos que estão no interior e que desejam a sua queda; mas o narrador consegue conquistar um espaço na plataforma, no meio da multidão; agarra-se a uma correia, já despreza os que estão pendurados; conquista uma posição ainda melhor perdendo dois botões do sobretudo; perde também a mulher da sua vida, ao não desistir da luta; finalmente, está no interior, avança para um lugar sentado. Vejam este trecho, com o esplendor da precisão do poeta: "Os que estavam sentados, à minha volta, eram burgueses abomináveis. Apertavam aos corpos as suas espessas peliças, fortalecidos pelos direitos que adquiriram e de que não queriam ceder a menor parcela. Contentava-me com o que se me tinha dado. Fingia não reparar no seu orgulho mesquinho. Conduzia-me como um saco. Sabia bem que os homens, por instinto, odeiam os outros homens e que perdoam mais facilmente a um saco que a um dos seus semelhantes".
Não conto o resto da história, mas dá para adivinhar: ele conquista um lugar sentado à janela, símbolo do triunfo na luta diária pela impiedosa ascensão social.

Imagem: a senhora Kosztolanyi e o filho Adam, em 1923, num quadro do pintor húngaro Vilmos Aba-Novák   

sábado, 28 de agosto de 2010

Uma cena de ciúmes

Caros leitores: têm à vossa disposição, neste local, um conto sobre ciúmes. Decorre num bairro operário de Budapeste, em 1910, e baseia-se em histórias verídicas que se repetem ao longo dos tempos e em diferentes lugares. Pode também ser imaginação, não sei. É um dos contos de Lajos Kormányos, que já escreveu aqui posts e que tenho o prazer de traduzir do húngaro, apesar de não saber quase nada de húngaro.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A tecnofobia


Em Origem das Espécies, Francisco José Viegas lembra o recente aniversário do escritor americano Ray Bradbury. O autor fez 90 anos e foi citado como sendo tecnofóbico (algo ridicularizado no texto aqui linkado).
Para mim, Bradbury é a memória do fantástico filme de François Truffaut, Fahrenheit 451, de 1966, analisado aqui. Gosto de muitos dos seus contos, alguns de ficção científica, outros de fantasia, mais dos primeiros. Este A Sound of Thunder é particularmente impressionante. Também resultou num filme recente. Bradbury é um poeta e um sonhador, o mesmo que se pode dizer de Truffaut. Ele demonstra que o género literário não tem de ser um gueto de especialização. A ficção científica (FC) é essencialmente uma meditação sobre o presente, em demonstração por absurdo.
Um amigo dizia-me que a FC é de direita e o policial de esquerda. Apesar das generalizações tenderem a exageros grotescos, a observação é curiosa. Talvez porque as utopias têm a ver com a liberdade e as distopias com a sua ausência, a FC tende a ser bastante política. Na parte do policial já não concordo com a tese, pois vejo mais como um género pouco interessado em temas políticos.
Enfim, podia acrescentar outros elementos: a crítica ao excesso de tecnologia, por exemplo, parece ser um sábio alerta de Bradbury. Estamos tão embrenhados no mundo digital, tão distraídos com os nossos brinquedos, que progressivamente vamos perdendo a atenção pelo que nos rodeia.
A ciência já discute os efeitos deste tsunami electrónico no cérebro humano. As distracções constantes, a ansiedade relacionada com a expectativa de informação inútil impedem o pensamento profundo essencial para a poesia.
Por enquanto é uma teoria, mas está a ser testada: as máquinas podem estar a matar a poesia. 

sábado, 21 de agosto de 2010

O peru de Salinger


A retrete utilizada para os seus chichis e cocós pelo reclusivo J. D. Salinger está à venda no portal de leilões eBay por um milhão de dólares. A um olhar menos atento do leitor ou meu, a dita peça de porcelana parecerá igual àquela que temos na nossa própria casa, mas o vendedor promete um certificado de autenticidade incluindo número de série. 
Desde que fugiu da ribalta e se encafuou na localidade de Cornich onde viveu cerca de 50 anos, o autor desse livro tão do agrado dos fanáticos da conspiração que é "The Catcher in the Rye" foi envolvendo os habitantes da localidade na sua teia protectora. Quando o jornalista ou a fã indesejados chegavam com perguntas e pedidos de indicações, eram desde logo confrontados com o silêncio ou, na melhor das hipóteses, recomendações bem intencionadas para que dessem meia volta e desistissem da sua missão.
Tom Leonard, no entanto, não desistiu e terá mesmo registado as últimas palavras de Salinger proferidas a um jornalista, quando deu por ele do outro lado da janela de sua casa: "Oh não!".
A interjeição foi tudo o que Tom teve direito a ouvir do autor, mas logo compensou esse facto no artigo que escreveria com a história que lhe contou um frequentador da Igreja Unitária Universalista, recheada de úteis conselhos sobre o que fazer se porventura encontrasse Salinger num dos jantares de peru mensais da sua congregação, durante os quais o escritor dava várias vezes um ar da sua graça:
«Ninguém é suposto dar a entender que sabe que ele está ali». «Trate-o como se fosse apenas outra pessoa normal». «E não fale com ele a não ser que ele lhe dirija a palavra primeiro. Não gosta de conversa de chacha».  
Gosto de imaginar o esforço que J.D. faria para esquecer o seu misantropismo e percorrer os cerca de 15Km entre Cornich e a Igreja, apesar das sérias hipóteses de ser incomodado por um jornalista perseverante como Leonard. Devia pelar-se mesmo a sério por uma perna de perú. 

   

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Consultório do Doutor Benji 2

Doutor Benji, nao entendo o motivo que leva os humanos a gostarem de canídeos. Nao acha estranha essa relacao (Valente, Amadora)?
Sempre achei estranha. O macaquinho humano é um animal complexo, com emocoes básicas de grande variedade. E uma delas é o chamado masoquismo. Os humanos gostam de sofrer. Veja como seguem os seus caes, apanhando em sacos de plástico todos aqueles dejectos mal cheirosos. E devem cumprir o horário do animal, que nem sequer é inteligente e, como toda a gente sabe, nunca tem vontade própria e faz tudo o que lhe mandam, excepto cagar a uma hora diferente.
O meu dono tem a mania de me fazer aquilo que a que ele chama "partidas". Ontem, encheu a minha comida de picante Eros Piszta. Doutor Benji, que fazer? (Mirtzi, Budapeste)
Os macaquinhos humanos acham-se muito divertidos. E usam uma emocao, o humor, que nós, gatos, felizmente nao temos. Quando o seu dono persistir numa "partida" e desatar a rir, tente exercer uma retaliacao á altura, por exemplo, roendo os cabos do computador, fingindo que foram ratos a destruir os fios. O seu dono pensará que há uma infestacao na casa, atribuindo-lhe a tarefa de matar os invasores. Faca questao de nao matar nenhum, o que nao será dificil, pois nao haverá ratos a sério na casa. E quando roer os cabos do computador, nao se esqueca de que a máquina deve estar desligada da electricidade.
Doutor Benji: a minha dona nao pára de me dar festinhas na nuca. Por vezes, é agradável, mas quase sempre se torna excessivo, até porque sou uma gata. (Fifi, Porto)
Minha querida, a situacao pode, de facto, ser embaracosa, mas nao há muito a fazer. Para termos a vida que temos, sem sermos obrigados a enfrentar o mundo selvagem, precisamos de disponibilidade para algum sacrificio, como é o caso de darmos a ilusao aos macaquinhos humanos de que gostamos muito deles. Por isso, quando receber festinhas da sua dona, tente ronronar com conviccao.

Retirado de Vida Gatal 11, escrito num teclado para gatos

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A mão de Appolinaire



O magret de pato com mel e especiarias acompanhado por batatas salteadas é a 25.50€ no Les Deux Magots, Saint-Germain-des-Prés, Paris. Não é sítio que hoje se aconselhe ao comensal de tão turístico que se tornou, mas era aí que parava - entre outros lugares como o Lapin Agile ou a Closerie des Lilas - Guillaume Apollinaire, baptizado Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary Kostrowicki.
Numa biografia onde se torna difícil, por vezes quase impossível, destrinçar o ficcionado do factual, George Vergnes descreve um episódio passado em 1912 e envolvendo Appolinaire, a sua amada e então musa Marie Laurencin, Louise  Faure-Favier e Max Jacob. A certa altura, Max inicia uma ronda de leitura da sina nas mãos dos convivas, reunidos num jantar em casa de Appolinaire na Rue de La Fontaine. Até que chega a vez de Guillaume:  

«Os deuses chamam cedo a si aqueles que protegem - disse Max Jacob - Não foste tu que escreveste: os poetas têm o direito de esperar, depois da morte, a felicidade perdurável que o pleno conhecimento de Deus lhes assegura, isto é, a suprema beleza? Conhecerás cedo essa felicidade perdurável, Guillaume. Não entrarás nem na "Revue des Deux Mondes" nem na Academia Francesa. Vejo uma vida curta e a glória da tua morte. Vejo...
- Idiota!
E Max, evitando à justa a bofetada que Guillaume lhe destinava, esquivou-se. Enquanto Dalize e Billy se interpunham, agarrou-se à mão de Marie Laurencin. Fez o ar mais inspirado e anunciou:
- Você, Marie, conhecerá também a glória, mas em vida...Deixará em breve Paris, passará muito tempo no estrangeiro...partirá...oh! com o seu marido, porque vai casar-se brevemente... 
Max Jacob teve um tempo de hesitação e disse como se se lançasse à água:
- Vejo. Casar-se-á com...um jovem pintor!»

O relato descreve que, nesse momento, «a mão de Guillaume partiu e estalou na cara do profeta». Appolinaire morreria apenas seis anos mais tarde e Marie partiria, pouco depois desta sessão de quiromância, para o exílio em Madrid acompanhada pelo marido o Barão Otto von Waetjen, o qual ignoro se terá sido pintor. A 17 de Fevereiro de 1915, Marie assina como "amiga" esta oferta para Guillaume. Judeu, Max Jacob não sobreviveu ao campo de Darcy e morreu em 1944. Não sabemos se terá antevisto, nas linhas da mão, o seu próprio destino. 
    
Na imagem: "Guillaume Apollinaire et ses amis", óleo sobre tela de Marie Laurencin, 1909








sábado, 14 de agosto de 2010

No tempo do Grand Hotel



Na Praça Duque da Terceira, no lado oposto à estação de comboios do Cais do Sodré, existia outrora o Grand Hotel Central. Aí jantou Júlio Verne, em 1878, com o seu editor para Portugal David Corazzi e o amigo e banqueiro Jorge O'Neill. Mas a imortalidade do Grand Central ficaria definitivamente salvaguardada pelo relato de um jantar dedicado a outro banqueiro, aquele que Eça nos descreve em "Os Maias" elevando o repasto à categoria de retrato social de todo um Portugal inerte: 
"Ega teve uma conferência com o Maître d'hôtel do Central, em que lhe recomendou muita flor, dois ananases para enfeitar a mesa, e exigiu que um dos pratos do menu, qualquer deles, fosse à la Cohen; e ele mesmo sugeriu uma ideia: tomates farcie à la Cohen".
A ideia não seria aceite. Mas depois do vermute - "uma gotinha para o apetite" nas palavras de Dâmaso Salcede - "Um criado, entrando, acendeu o gás; a mesa surgiu da penumbra, com um brilho de cristais e louças, um luxo de camélias em ramos".
Depois das ostras, a sole normande. E entre esta e o poulet aux champignons, o banqueiro Cohen solta a frase que ainda hoje se mantém intacta na imutabilidade do desequilíbrio entre o deve e haver dos cofres públicos: "A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, falir o país...". Discute-se. O Ega grita: "Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola". E, então, chega finalmente o prato de ervilhas num molho branco. São as petits pois à la Cohen. A bancarrota é esquecida, abre-se o champanhe e o Dâmaso declara o baptizado legume, como tudo o resto, "chique a valer".