domingo, 28 de agosto de 2011

"Pensar como Uma Montanha"


A partir de hoje, durante algumas semanas, transcrevo aqui frases do fundador da Ética da Terra - o americano de origem alemã Aldo Leopold (1887-1948) - que encontro na tradução para o nosso português do seu livro A Sand County Almanaque (1949), editada pelas Edições Sempre-em-pé em 2008 com o título Pensar como uma Montanha.
São pequeninos textos. Talvez possa deixar um por dia, talvez apenas dois ou três por semana. O certo é que um, na sua simplicidade ou profundidade, universalidade ou actualidade, na sua poesia, humor, beleza ou leveza, tem o condão das asas próprias, de ficar a ecoar nas nossas cabeças, de saltar por cima do tempo como se ele ali não estivesse, talvez até de influenciar os bits informáticos e impressionar o apático hardware. Talvez, não sei. Logo veremos.
Primeira delas:

“É uma ironia que as grandes potências tenham descoberto a unidade das nações no Cairo em 1943. Os gansos de todo o mundo tinham essa noção há muito tempo já, e todos os anos em Março apostam a sua vida nessa verdade essencial.”

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Poema # 1



Amo-te. Basta-me um pássaro, uma árvore
para me transportar ao jardim
de ti — um livro, uma palavra, o peso
do silêncio
para me levarem ao poço de ti,
aos teus olhos que ofuscam
o cristal da manhã; à tua boca
aproximando-se da minha pele
como se regressasse a casa.
Cantar-te é desfazer o nevoeiro da minha vida,
desfiar uma chama, ardendo lenta,
que não se via. E basta-me um vinho
ou a tua língua,
ou a memória dela
para que em mim disparem águas
trémulas — ainda são — por isso
quando te amo
sou um pouco essa montanha que tece com o vento
uma combustão muito lenta muito paciente
como se todo o fulgor da vida
se concentrasse nos vales e nos rios do teu corpo.

[Casimiro de Brito, in AMAR A VIDA INTEIRA]

domingo, 14 de agosto de 2011

Dicionário das Ideias Estreitas



D


Dalai-lama - Pessoa que se veste sempre de cor-de laranja (não confundir com uma estrela pop). Quando fala diz coisas muito espirituais e plenas de significados místicos. Quando se cala também.
É totalmente bom. As pessoas que o seguem e tentam tocá-lo são, também elas, muito espirituais e totalmente boas. As que seguem os padres e o papa são beatas. As que vão à mesquita são fundamentalistas.
A propósito falar sempre de paz e mencionar que “gostava muito de ir ao Nepal”-

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O tempo corria devagar

Acordávamos estremunhados, ou talvez não chegássemos sequer a dormir, com medo das horas. A noite embrulhava-se, ainda, no escuro e nós vestíamo-nos à pressa, enfiando a roupa preparada de véspera, sem fazer barulho. Queríamos tanto ir.
E então íamos, muito calados, a conter a ânsia da viagem que nos levaria para longe,  para uma outra vida de tardes de sol e de sestas, de pedrinhas brancas de pederneira e folhas cheirosas dos arbustos, de fruta apanhada das árvores, de correrias e brincadeiras. Uma vida que durava os três meses inteiros que durava o Verão.
A viagem. Uma camioneta ronceira, que partia de uma praça de Lisboa, junto a uma garagem de proporções gigantescas (pensávamos nós). O céu iluminava-se de púrpura e vermelho, vencendo a escuridão aos poucos, e à volta da camioneta era  uma confusão de malas atadas com cordas, de cestos de verga e vozes sobrepostas. O motorista queria sair à hora e nós corríamos para os lugares de trás, era mais divertido, dizíamos nós, já não me lembro porquê. O farnel sobre as pernas (um panado no pão e uma peça de fruta embrulhados num guardanapo de pano), e lá íamos. Era a festa da camioneta a sair da cidade, a entrar naquelas estradas onde começavam a rarear as casas e a suceder-se as curvas.
A paisagem transformava-se, viam-se cavalos e manadas de vacas, casas de pedra isoladas nos campos, o licor beirão nas fachadas de granito das vilas perdidas no meio dos montes (o que é isso, licor beirão? mas a nossa mãe também não sabia), o cansaço das curvas, e do ronco da camioneta nas curvas e nas subidas, os pinheiros e os barrancos (nunca mais chegamos, quando é que chegamos, mãe? E ela, sempre a mesma resposta, ainda falta, dorme um bocadinho).
Nós dormíamos e a camioneta seguia devagar, sempre às curvas. Levava o dia inteiro naquilo, até que avistávamos a lagoa de águas mansas, os juncos nas margens cobertas de seixos negros, os patos voando em bando. Estávamos quase a chegar e o nosso entusiasmo reacendia-se. Esquecíamos o cansaço, o caminho ficava para trás. À chegada, lá estava a nossa avó, sorridente, à espera. Pela frente, teríamos dias inteiros de brincadeira e correrias, de pedrinhas brancas e folhas cheirosas dos arbustos, tardes de sestas e o aroma eterno da resina dos pinheiros. O tempo corria devagar, a nosso favor.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A ambulância cor-de-laranja



A oferecida da vizinha preparava-se para sair. Estava a acabar de dar um jeito ao cabelo, na casa de banho.
– Vuuuuuuuuuuuuuu. Toc, toc, toc. Klank. Toc, toc, toc. Vuuuuuuuuuuuuuuu. – O secador soprava, eléctrico e ritmado, através do tecto, interrompido pelos retoques na maquilhagem e mais uma troca de roupa.
Andava de saltos altos pela casa fora, como se estivesse na passerelle. Nem os tirou quando chegou do trabalho. Mas a roupa mudou, ai se mudou, que aquele fato másculo de advogada em ascensão não serve para a night. Sinceramente, não percebo como se pode andar de sapatos calçados em casa. A coisa que mais gosto é de estar de pantufinhas, ou descalço se estiver calor, para sentir os azulejos frios da cozinha e as franjas dos tapetes do corredor nos dedos dos pés. E só com o meu pijama vestido, ou com uns calções largos e uma t-shirt XXL esguedelhada.
Esta, anda quase sempre de saltos de agulha. É daquelas que nem os tira quando se põe de lingerie a excitar os namorados. Também já a ouvi a gemer que nem uma arara, a empenar o estrado da cama e a pedir mais força, mais força, meu cabrão! Uma desavergonhada. Mas agora põe sempre música alta, ou a televisão, para disfarçar.
Se eu desligar tudo, consigo perceber perfeitamente em que divisão está e o que anda a fazer. Chama-se Madalena, nem de propósito. Madalena Brito. Já memorizei os horários dela: de quinta-feira a domingo nunca aparece antes das cinco, seis da madrugada, a tropeçar nos degraus e a cantarolar, antes de arranhar a porta toda com a chave. E na semana de licença menstrual faz tudo menos repousar, como pretende a regulamentação, e chega a ficar às duas e três noites sem aparecer em casa. Nos outros dias finge que se porta bem, numa firma de advocacia de que aspira a ser um dos sócios. E já a vi na televisão uma vez, a defender a Luciana Abreu quando esta se divorciou daquele avançado negro do Everton, o Yannick Djaló.

domingo, 7 de agosto de 2011

DICIONÁRIO DAS IDEIAS ESTREITAS



C

Cabo-verdianos (subst) - Dos que vivem em Cabo Verde diz-se que são “um povo sorridente e hospitaleiro”.Dos que vivem em Portugal diz-se são "os pretos". Comem cachupa. Falam crioulo e trabalham nas obras.
(Cabo-Verde) - País muito apreciado por aqueles que gostam de se fazer passar por viajantes intrépidos e destemidos, mas que depois terminam sempre a falar das comodidades do hotel, das piscinas e das mulatas que passam ao longe.

DICIONÁRIO DAS IDEIAS ESTREITAS


B

Bacalhau (subst) - A propósito deste espécime é obrigatório afirmar com ares de proprietário: “em Portugal come-se bom bacalhau”. Em seguida deve-se dizer entre um vago suspiro: “agora vem todo da Noruega”, como se antes viesse todo ali da Nazaré.
Peixe que serve aos cérebros e olfactos mais rudimentares para fazerem piadas sobre o órgão sexual feminino.