quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pensar como uma Montanha 7


Uma virtude peculiar da ética da vida selvagem é que habitualmente o caçador não dispõe de uma plateia que aplauda ou desaprove a sua conduta. Sejam quais forem os seus actos, eles são ditados pela sua própria consciência e não por uma multidão de espectadores. Não é demais insistir na importância desse facto.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Diário de ideias soltas (2)


Ao ler uma História da China, de John Keay, deparei com a personagem do imperador Hongwu, ou Zhu Yuanzhang, que governou durante 30 anos, no século XIV. Zhu era um camponês e tomou o poder após uma revolta e a guerra civil que levou à queda da dinastia Yuan, consequência do caos que se seguiu à peste negra. O fundador da dinastia Ming é hoje visto pelos historiadores como um unificador que impôs a ordem no país. Todos os dias condenava pessoas à morte, mas o pormenor que mais me interessou foi o conceito de “execução até ao quinto grau”. Um dos métodos de matar os condenados era esquartejamento lento, mas este quinto grau não dizia respeito ao requinte na forma, mas sim à extensão da colheita. O ministro em causa chamava-se Hu Weiyong e os documentos sobreviventes dizem que teria sido demasiado poderoso, corrupto ou incompetente, não se sabe ao certo. Em 1380, este ministro foi condenado ao quinto grau, o que implicou a morte de 30 mil a 40 mil dos seus familiares, até ao quinto grau de parentesco. Segundo se conta, um confuciano escandalizado com estas prepotências apresentou-se perante o imperador e criticou-o. Vinha acompanhado do próprio caixão e, após terminar a sua crítica, deitou-se dentro dele. Impressionado com a coragem deste homem, o imperador, por uma vez, exerceu a clemência.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pensar como uma Montanha 6


Quem possuir um velho carvalho de grandes bolotas possui algo mais do que uma árvore. Possui uma biblioteca histórica e um lugar cativo no teatro da evolução.

Diário de ideias soltas (1)

Passeio breve. Muitos trabalhadores vieram de férias e o trânsito está outra vez caótico. Em três locais diferentes, pessoas discutiam. Uma rapariga gorda gritava para um velho, talvez com razão; sandália chã, como se usa agora, a blusa sem chegar à calça, mostrando um pneu de banha a nível da cintura. Um velho e uma velha sentados num dos novos bancos de jardim gritavam um com o outro: “Deixe-me falar”, explodiu ele, a certo ponto; não percebi o tema da discussão; quando reparei neles, aquilo continuava: iam ao fundo da rua, ele atrás dela; chegaram a um prédio e entraram.

Sol manso, ar de cristal, ocorreu-me isto:



Observo o esplendor do dia

Que passa em morna monotonia

Dois velhos discutem

Ela exige que a escutem

E diz ele, deixa-me falar

Não há meio daquilo acabar

Se houvesse só gente amável

O mundo seria mais suportável

Mas talvez fosse muito banal

Sempre a sorrir, sempre igual
 
também publicado aqui

domingo, 4 de setembro de 2011

Pensar como uma Montanha 5

A canção de um rio significa em geral a música que as águas tocam tendo como instrumentos as rochas, as raízes e os rápidos. (…) Para ouvir nem que sejam umas poucas notas dessa canção, é preciso em primeiro lugar viver-se aqui por tempo prolongado, e aprender a conhecer o discurso das colinas e dos rios. (…) Cada rio canta a sua própria canção, mas na maior parte dos casos a canção foi desde há muito desfigurada pelas desarmonias provenientes dos maus tratos. (…) Existiram outrora homens capazes de habitar um rio sem romperem a harmonia da vida que nele vivia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pensar como uma Montanha 4


Todas as pessoas desiludidas deveriam passar a

segunda semana de Maio numa mata de pinheiros
.

[Sobre a Primavera no Estado do Wiscousin, EUA]

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Pensar como uma Montanha 3


Todas as profissões recorrem a uma pequena manada de epítetos, e necessitam de pastagens onde eles possam correr livremente. Por isso, os economistas precisam de encontrar algures campo livre para o seu linguajar preferido, por exemplo 'submarginalidade', 'regressão' e 'rigidez institucional'.